Carnaval de rua em Pernambuco nas fotografias de Fred Jordão

“Para ser folião é preciso encontrar a habilidade de falar com o corpo e nele depositar cor, forma, volume, movimento; e, em especial, ter uma alegria poética, sensual e sexual; e também cômica e dramática. Isso é a fantasia. E a invasão do personagem na pessoa”, afirma Raul Lody em um dos parágrafos do texto O Sonho da Folia¹. As palavras escritas pelo antropólogo e folião fazem companhia às imagens do fotógrafo Fred Jordão no catálogo da mostra Carnaval de rua. A exposição reúne 24 imagens de pessoas envolvidas em maracatus e bois, por exemplo, e será inaugurada quinta-feira (03/01/2013), às 19h, na Arte Plural Galeria² , Bairro do Recife.

Fred tem uma experiência de 20 anos trabalhando na cobertura do Carnaval de Pernambuco, mas as fotos mostradas desta vez são fruto de outra vivência. “Depois de muito tempo fotografando para revistas, jornais e blogs durante o Carnaval, fui cansando um pouco. Nos últimos anos, todo o interesse deles era para os grandes shows, fiquei cansado e desisti. Mas o vício do fotógrafo ficou. Peguei uma câmera simples, com uma lente só, botei em uma bolsa, saí para o Carnaval e lógico que não fui para os shows. Comecei fotografando se nenhum compromisso e gostei do resultado, as fotos têm algo mais experimental. Meu trabalho sempre foi documental, mas pode ter um pouco de experimento. Comecei a fazer uma reflexão sobre como esse tipo de manifestação é uma coisa que só a gente tem. Quando comecei a brincar Carnaval, a gente dizia: ‘Quero ver o Eu acho é pouco!, ‘Quero ver o desfile do Ceroula’, ‘O encontro dos maracatus’… Hoje, muita gente diz quero ver o show de fulano de tal. Está se perdendo um pouco dessa outra coisa”, afirma o fotógrafo.

“Não tenho absolutamente nada contra os shows. Sou de uma geração que achava que a gente precisava incluir outros ritmos também. Gosto dos shows, mas acho que a gente passou disso para esquecer um pouco desse outro lado. Os shows podem acontecer em outro lugar com a mesma programação do Carnaval no palco, mas não pode ter essas outras coisas que a gente tem aqui”, continua.

O fotógrafo encontrou as cenas mostras nesta exposição em cidades como Recife (nos Pátios de São Pedro e Santa Cruz, em Casa Amarela, Nova Descoberta, etc.), Olinda e Carpina.

“Eu também queria algo que não fosse igual ao projeto Lambe-lambe, no qual trabalhei por oito anos. Comecei a fotografar essa coisa mais de rua, dos subúrbios. Comecei também a fazer brincadeiras, sequências de várias fotos³, como a do homem colocando roupa de mulher. Acho que tem uma magia que Raul Lody captou muito, a coisa do teatro, de você se transformar. Acho que essa é a grande essência do Carnaval de Pernambuco e o diferencial da gente”, afirma.

Arte Plural Galeria – Rua da Moeda, 140, Bairro do Recife. Informações: 3424-4431.

 

 

 

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* O texto foi originalmente publicado no Jornal do Commercio.

¹ O Sonho da Folia, por Raul Lody:

Para ser folião, no tempo do reinado de Momo, o palco ideal é a rua, o beco, a esquina, ou aquela praça com a luz do dia a dia. É preciso ter um sentimento particular que está no sonho de cada um.

Para ser folião é preciso encontrar a habilidade de falar com o corpo, e nele depositar cor, forma, volume, movimento; e, em especial, ter uma alegria poética, sensual e sexual; e também cômica e dramática. Isso é a fantasia. E a invasão do personagem na pessoa.

O personagem impera nos nossos sentidos. Ele promove um texto, uma ação, e fala tudo aquilo que vai além da palavra.

O corpo fala de forma própria, criativa e dominante, sobre esse destino traçado por Momo, um rei que exige total fidelidade do folião. Pois cada um terá o seu papel na festa.

Para ser folião é preciso estar na rua para ser apreciado ou para ser engolido pela massa humana que está faminta pela liberdade da festa.

Para se estar no reinado de Momo é preciso um rosto suado, um “passo” bem dado, um abraço apertado.

Do coração para a boca, do gesto para o sorriso. No tocar, no roçar, no beijar. Nessa busca pelo “sonho sonhado”, Momo comanda seus fiéis súditos. Foliões encharcados do espírito carnavalesco: “danado de bom”; “bixiga-lixa”; “virado no cão”. E, é isso que dá alegria e emoção ao verdadeiro folião.

Para ser folião é preciso se lambuzar, se juntar, entrar no “rugi-rugi” para sonhar e também trazer o sonho para o outro, provocar no outro esta “brincadeira”.

É uma energia que contagia, emana e irmana, para fazer o homem virar mulher e a mulher virar homem; o homem virar de bicho e o bicho virar homem. É o homem que vira urso. Faz o boi dançar. Faz a “sombrinha” se equilibrar de tudo que é jeito, no melhor gesto, no melhor “passo”, numa deliciosa “munganga”. É o teatro coletivo de rua. É o Carnaval de Momo.

Não tenha medo da “folia”, pois isso é coisa de “menino amarelo”. Deixe a purpurina colar no suor do rosto. Faça de um pedaço de papelão a sua melhor fantasia.

Seja tantos, muitos, na multidão.

Pois, para ser folião, sonhar é preciso.

Viver o carnaval de rua também é preciso.

Evoé, para o Carnaval de verdade do Recife!

² Encerrado o período de visitação no Recife, Fred Jordão mostrou as obras de Carnaval de Rua em Lisboa.

³ Uma das sequências é a série Sombras do Frevo, com a qual Fred Jordão homenageia Alexandre Berzin.

* O texto foi originalmente publicado no Jornal do Commercio.

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