Ranulpho lança livro sobre a obra de Vicente do Rego Monteiro nos anos 1960

Com uma caligrafia firme e expressiva, como o traço que dava forma às figuras em suas telas, o artista Vicente do Rego Monteiro (1889-1970) preenchia os envelopes das cartas que enviava do Rio de Janeiro para o marchand Carlos Ranulpho, no Recife. Dentro deles, as notícias seguiam em uma linguagem direta em tom atencioso. Os dois se conheceram em 1969, quando um procurou o outro para organizar uma exposição. Os laços permaneceram mesmo após a morte de Vicente e, até hoje, o marchand representa a família do artista. Outro sinal desta proximidade é um projeto que Ranulpho acalentava há anos: lançar um livro sobre um período pouco divulgado da obra do amigo. A ideia tomou corpo e, nesta terça-feira (05/03/2013), às 19h, Vicente do Rego Monteiro – Olhar sobre a década de 1960, será lançado na Ranulpho Galeria de Arte, ocasião em que o marchand celebra os 45 anos de seu espaço expositivo no Bairro do Recife.

Ranulpho havia aberto sua galeria cerca de um ano antes de ir ao Edifício Holiday com a intenção de conhecer pessoalmente o artista plástico. Como não encontrou Vicente, ele passou um cartão por baixo da porta convidando-o para uma visita, o que se concretizou alguns dias depois. O marchand lembra que “direto como era seu hábito”, Vicente perguntou o que ele queria. Quando Ranulpho disse que pensou em convidá-lo para mostrar suas obras na galeria dele (“pois sei de sua relevância no âmbito das artes e também porque estou sabendo que há anos não expõe no Recife”), Vicente disse não acreditar que ninguém da capital pernambucana colocaria as pinturas dele na parede.

Mas o marchand insistiu na ideia. Sugeriu que ele pintasse dez telas com tamanho médio e outras dez pequenas, as dimensões e os valores seriam determinados por Vicente. Em um pedaço de papel, o artista colocou estas informações e também o desconto que daria para a galeria. Tudo acertado, os dois foram comemorar tomando chope em um bar perto dali. “Foi um acordo e uma maneira de trabalhar que permaneceram para sempre entre nós”, recorda Carlos Ranulpho no texto que escreveu para o livro.

O marchand conta que reencontrou o artista alguns dias depois, já com três pinturas feitas, nas quais se via um grupo de freiras, um carro de boi transportando cana-de-açúcar e duas corsas, respectivamente. Todas elas foram vendidas antes mesmo da inauguração, assim como aconteceu com as outras pinturas da mostra, que depois foi ampliada para 25 obras. Até os desenhos, que Vicente levou para a vernissage por sugestão de Ranulpho, foram vendidos. “Foi um fato inusitado e relevante: vender obra em papel, no Recife, em 1969, período em que não havia ainda um mercado de arte consolidado para papel sequer no eixo Rio-São Paulo”, continua.

Esta é uma das histórias, do âmbito profissional e particular (como os almoços aos sábados na casa do marchand), que Carlos Ranulpho compartilha na obra. As 230 páginas do livro reúnem um farto material em texto e imagem para os interessados em saber mais sobre Vicente e o contexto das artes visuais na época. A publicação também apresenta uma detalhada cronologia sobre a vida do artista no período abordado pelo livro, elaborada pelo jornalista e historiador Leonardo Dantas.

Além disso, o leitor encontrará curiosidades, como as cartas de Vicente para Ranulpho citadas no início deste texto. Elas foram reproduzidas no livro, assim como textos publicados em jornais da época, páginas de catálogos e algumas fotografias. Isso sem falar nas 190 pinturas, que fazem parte de coleções particulares, de museus e outras instituições culturais: a Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj), o Itaú Cultural (SP), Palácio Do Governo de São Paulo (Campos do Jordão), Museu Oscar Niemeyer (PR) e o Museu Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro. Todas acompanhadas por informações como a técnica utilizada e o ano em que foram pintadas.

O projeto contou com apoio da Lei Rouanet (o Armazém Coral e a Chesf foram os patrocinadores). O livro traz também um depoimento da segunda esposa de Vicente, Crisolita Pontual (com quem ele teve três filhos e viveu seus últimos anos), e um longo texto do crítico de arte Jakob Klintowitz (SP), que começa com um grande elogio ao pernambucano: “O pintor Vicente do Rego Monteiro realizou no século 20 um feito notável que parecia impossível: sozinho, e por conta própria, inventou a criação do ser humano e do mundo. Ele não elaborou, como outros grandes artistas, a revelação de um mundo que estava oculto. Ele não cumpriu a extraordinária saga do artista definida pelo gênio de Paul Kleee, a de tornar visível. Caso Vicente do Rego Monteiro não tivesse existido, nós não teríamos este universo e esta iconografia original, pois ela não poderia ser criada por nenhum outro artista. E se imaginássemos que a obra de Vicente do Rego Monteiro desaparecesse numa catástrofe, de resto, em parte, muitas vezes isso aconteceu com sua obra, nós poderíamos afirmar que um mundo teria desaparecido”.

“Acho que nada é mais difícil do que um lápis, nada mais puro a não ser um lápis, e nada mais medíocre do que um desenho feito a lápis por uma pessoa que não sabe desenhar. Com um lápis você faz tudo. É uma maravilha. Você pode realizar uma obra de arte e uma negação”.

“Quero acreditar no seguinte: Só acredito no poeta que morre pela sua poesia, no pintor que morre também por ela, por sua pintura. Aquele que muda, abandona, ninguém pode acreditar nele, se ele próprio não tem confiança em si”.

Poesia não era atrelada a uma visão política

Vicente era o que se chama de artista múltiplo: pintor, desenhista e poeta, ele também foi editor, professor e impressor. E pintava com rapidez (o numeroso conjunto de pinturas reunidas em um livro como este, dedicado a um período específico, é um exemplo disso). Vicente “tinha certeza do que pretendia, tinha um conceito formado, era um artista maduro”, define Ranulpho em outra parte da publicação.

Jacob Klintowitz destaca a poesia como sendo a principal característica da obra de Vicente, que ele descreve como “feita de alma e concretude”. E afirma que isso se intensificou quando o artista voltou ao Recife, depois de morar na França: “… a diversidade de assuntos tratados na sua pintura, a energia transbordante de seu trabalho, a sua capacidade produtiva e os planos para o futuro, relatados em depoimentos e cartas. A sua morte, no dia 6 de julho de 1970, interrompeu um fluxo criativo que estava no auge. Nesse período, a obra tem um caráter múltiplo, dinâmico, inventivo. O artista está movido pelo entusiasmo como se iniciasse um novo percurso profissional”, avalia o crítico.

Nas páginas seguintes, ele discorre sobre diversos aspectos da produção deste artista pernambucano, como os temas das pinturas (entre eles, o nascimento, o circo, o esporte, atividades cotidianas, a simbiose entre homem e animal): “Vicente do Rego Monteiro enfrentou os mitos essenciais da saga humana e tratou, à sua maneira, dos protótipos, das imagens platônicas, dos arquétipos, como se queira chamar. E esse é um dado notável, em nenhum momento a sua pintura perde o mistério ou se torna meramente didática”, define.

O texto é informativo e claro. Jacob também aborda a disposição dos elementos na tela. Fala sobre a geometria nas composições, o uso da simetria e da repetição, por exemplo. Ele ainda situa Vicente no circuito artístico brasileiro da época e para falar sobre a dificuldade de reconhecimento do trabalho do artista naquele período, o autor recorre também ao crítico de arte Carlos Perktold, que aponta alguns fatores relevantes: “o primeiro deles, segundo Perktold, era o fato de os meios de comunicação serem dirigidos por intelectuais e jornalistas de esquerda. Rego não fazia o perfil ideal desse grupo. Nem os seus assuntos, nem o tratamento da pintura e nem a posição política de Vicente, que se dizia anarquista. Perktold vê, também, na insistência monarquista do pintor um elemento de autodestrutividade. Acrescente-se as longas estadas do artista na França. Vicente do Rego Monteiro é, para Carlos Perktold, o mais brilhante pintor de sua geração brasileira”.

* O texto foi originalmente publicado no Jornal do Commercio.

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