Rodrigo Braga fala sobre residência em Nova York e Dead Horse Bay

Uma praia na região do Brooklyn, distrito de Nova York, chamou a atenção do pernambucano-amazonense Rodrigo Braga. A Dead Horse Bay, como é chamada, já foi um depósito de lixo e um lugar onde animais mortos eram processados para se fabricar sabão. Os vestígios destes períodos permanecem. É “um local belo e denso, simbolicamente e visualmente”, resume Rodrigo, que no momento vive uma residência artística na cidade norte-americana e iniciou o processo de criação das obras que apresentará em uma exposição individual na sede da organização Residency Unlimited (RU), com inauguração marcada para o dia 23 de outubro.

A bolsa para a residência foi um prêmio oferecido, a partir de parceria entre o Instituto de Cultura Contemporânea (ICCo) e a SP-Arte, a dois artistas representados pelas galerias que participaram dessa feira de arte em 2013. “Quando vim para Nova York, comecei a me situar. Isso é meu hábito de trabalho, dificilmente venho com um projeto muito delineado. Eu preciso estar no local, perceber o ambiente, a cidade, a região. Me embebedar, digamos assim, da cultura do local, das pessoas, da paisagem, para daí começar a ter as ideias e as criações”, afirma Rodrigo.

O primeiro mês dele em Nova York, iniciado em setembro, foi de muita observação: “Visitei alguns lugares. O início da ideia veio a partir de observar que tipo de natureza, ou que tipo de relação com a paisagem e a natureza, o nova-iorquino tem. Comecei visitando parques, jardins botânicos, praças. É uma cidade bastante arborizada”.

“Quando soube dessa praia, com este nome que é forte e poético ao mesmo tempo, quis ir lá. É um espaço muito interessante. A partir de 1850, era um local para onde eram levados os cavalos mortos da cidade. Nova York era circundada por fazendas e, ao mesmo tempo, havia os cavalos urbanos que faziam tração. Quando mortos, eles eram levados para lá, onde havia fábricas de processamento para fazer sabão, graxa, óleo, cola (usando gordura animal). Esta história durou até 1930”, continua Rodrigo.

Ele também explica que, já a partir daquele ano, começaram a depositar lixo na baía, coberto com areia: “Em 1972, isso acabou e a praia ficou fechada. Mas agora, o que acontece é que o mar está vindo, cavando. Andei pela praia coletando ossos, pensando o tempo todo nesta história. Coletei até agora mais de 50 ossos, pedaços de ossos supostamente de cavalos”.

“É interessante, porque você encontra dentro da cidade, que é uma megalópole, uma região de praia e que traz um passado rural da cidade”, destaca Rodrigo sobre este lugar fronteiriço. Uma região que conecta aspectos do passado e do presente, do urbano e rural, assim como na obra de Rodrigo acontecem vários encontros: de tempos, de lugares, do corpo com o ambiente, da morte com a vida, da força com a delicadeza.

A partir dos vestígios deixados em um lugar é possível imaginar diversas histórias. E nisso também há uma semelhança com a experiência de observar as obras de um artista como Rodrigo. Interpretações e impressões vão aflorando na medida em que se presta atenção a cada camada, se conecta cada parte da produção. “Para mim é super interessante despertar incertezas. Meu trabalho é muito isso, eu lido com fantasia. Eu costumo dizer que são imagens especulativas. Você vê ali parte da história. Parte é você que vai determinar, olhar”, analisa Rodrigo.

O trabalho que ele está criando não segue o caminho de um registro documental da baía, mas de uma criação artística que se fertiliza com esta observação cuidadosa do que está em volta. É o encontro de um artista e um lugar, com o que ambos carregam. “Sou artista, não estou lá para documentar isso, mas para contar minha versão de uma história que estou vivendo, que tem um passado factual, mas que é meu olhar de criação, de sensibilidade em torno da região”, conta Rodrigo.

O artista está sendo acompanhado pela curadora Jovana Stokic. Ela atua na área das artes performáticas e já realizou trabalhos com Marina Abramovic, por exemplo. Jovana e Rodrigo participam de um bate-papo com o público na abertura da mostra. No momento, o artista está na metade do período da residência e adianta que a individual deve ser formada por fotografias, vídeos e objetos. A exposição será mostrada no Brasil, em 2014, na SP-Arte.

Dead Horse Bay, uma praia na região do Brooklyn, distrito de Nova York, em foto feita por Rodrigo Braga durante a residência artística

MoMA e Masp

Esta tem sido uma fase bem fértil na trajetória de Rodrigo Braga, tanto no que se refere à criação em si, quanto às oportunidades para expor as obras em diferentes lugares e de conversar com as pessoas. Foi o que ele fez no dia 2 de setembro, junto com o curador Kevin McGarry, no Museu of Modern Art (MoMA). Rodrigo tinha acabado de chegar à Nova York para a residência e, coincidentemente, na mesma época, a obra Tônus (2012) era apresentada em um evento no museu, o Expo Cinema.

Em dezembro, no Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (Masp), acontece a exposição Prêmio Masp de Artes Visuais, no qual Rodrigo foi contemplado com os artistas Regina Silveira (RS) e Odires Mlaszho (PR).

Ainda falando na capital paulista, Rodrigo está preparando com o Instituto de Cultura Contemporânea (ICCo) uma exposição individual no Sesc Pompeia. Deve ser inaugurada no segundo semestre de 2014 e reunirá obras criadas pelo artista na Amazônia nos últimos anos.

Enquanto isso, é possível conferir, pela internet, obras que Rodrigo e mais quatro artistas criaram durante uma residência artística no programa de criação Labverde: Experiências Artísticas na Amazônia. Rodrigo nasceu m Manaus (e posteriormente se mudou para o Recife). Há alguns anos, ele tem desenvolvido obras na região. A do Labverde começou a ser criada a partir da observação da semelhança entre a forma da folha de uma arácea e de um tambaqui, marcados pela ação de insetos e do homem, respectivamente.

* O texto foi originalmente publicado no Jornal do Commercio

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