Dança e arte contemporânea também são feitas para as crianças

No palco, os brinquedos, o movimento das brincadeiras, o estímulo à imaginação. Na aula, se aprende que dançar não é sinônimo de repetir uma sequência de passos, tem a ver com a percepção do próprio corpo, da sua relação com o outro, com o espaço e o tempo, por exemplo. No museu, participa-se de várias experiências para conhecer um pouco da cultura de outras pessoas. Mesmo que ainda não sejam comuns para muitos, iniciativas como essa mostram como a aproximação das crianças com a arte pode começar bem cedo, estimulando a sensibilidade e a imaginação com um leque mais diverso de opções, para contemplar e praticar.

“Sou mãe de uma menina de sete anos. Comecei a entender sendo mãe que há uma carência enorme de espetáculos de dança contemporânea para as crianças. Não tem muita opção, tem o balé, a dança de rua, musicais, mas o tipo de dança que eu faço não tinha. Esta necessidade de criar espetáculos para criança veio em cima disso. É muito importante, não só porque estamos formando o olhar para a dança contemporânea, mas criando uma possibilidade expressiva para o corpo”, diz a coreógrafa carioca Dani Lima, que participou da mais recente da Bienal Sesc de Dança, em setembro, na cidade de Santos (SP). No evento foram apresentados três espetáculos de dança contemporânea para crianças. Cada um com características diferentes.

Em Pequena coleção de todas as coisas, da Cia. Dani Lima (RJ), os objetos (brinquedos e itens domésticos) ganham novos significados e usos, a partir da memória e da imaginação. Simbologias que fazem sentido para crianças e adultos. “É muito comum adultos chorarem, de algum jeito chegamos a um lugar que mexe com certa nostalgia da infância”, afirma a coreógrafa.

Têtes à têtes, de Maria Clara Villa Lobos (Bélgica), por exemplo, abordava os ciclos da vida e usava projeções em vídeo. A Balagandança Companhia (SP) participou com Álbum das figurinhas (Foto: Gil Grossi), no qual há muitos movimentos inspirados nas brincadeiras e interações infantis. “Para mim, a brincadeira é o código que a criança tem do movimento. Fui beber nesta fonte no início. Atualmente, de seis ou sete anos para cá, a gente ampliou isso para o brincar mais do imaginário”, resume a coreógrafa Georgia Lengos.

No Recife, a bailarina Bella Maia começou a desenvolver um trabalho de dança contemporânea para crianças no Espaço de Trela. “A gente começou como teste, nas férias (de julho), para ver como as pessoas recebiam a proposta. Me formei no Rio de Janeiro e, quando voltei para o Recife, fiz uma pesquisa e vi que não existia nada assim”, lembra Bella, que se especializou nesta área.

Dança, música, contação de histórias e lanche coletivo faziam parte da experiência no Espaço de Trela. “A aula passa por etapas. Primeiro a de acordar o corpo, depois observar, criar com várias partes do corpo, entender sua relação com o outro, a questão do espaço… Cada um tem um ritmo diferente do outro e acolher isso no trabalho com crianças é fundamental. Dança contemporânea para mim é você pensar o corpo. Este é o tipo de dança que me movimenta. Com as crianças, chamo de Dança Criativa. Não existem padrões a ser repetidos”, explica.

Crianças e as Artes visuais

Na Europa, o Tropenmuseum Junior, fundado em 1975, na Holanda, é um museu dedicado às crianças (o foco está na faixa etária de 6 a 13 anos). Atualmente, exemplos da cultura pernambucana são apresentados às crianças holandesas com a exposição MixMax Brasil. “Tivemos uma resposta muito boa (delas) sobre o frevo, o maracatu, o projeto de design com reaproveitamento de materiais, o mangue, a obra dos artistas Derlon Almeida, Bete Paes, Thiana Santos, Galo de Souza, Vitalino, J. Borges”, afirmou a líder de projeto do museu, Liesbet Ruben.

O objetivo da equipe do Tropenmuseum é estimular a curiosidade delas sobre o mundo que as rodeia. “Nós nos esforçamos para torná-los mais conscientes da sua conexão com as pessoas ao redor do mundo, de modo a alcançar o entendimento e respeito pela diversidade da comunidade global e incentivá-los a manter a mente aberta”, diz a equipe na apresentação.

O planejamento de cada exposição leva cerca de dois anos e a próxima será sobre a cultura marroquina na Holanda, em Amsterdã e em nossa própria vizinhança”, explica Liesbet.

O Tropenmuseum Junior tem toda uma estrutura preparada para as crianças, algo que ainda não é tão comum. Mas, independente disto, o contato delas com as artes pode estimulado em casa mesmo. No caso do filho da curadora Cristiana Tejo, este contato com a arte contemporânea surgiu (e foi se desenvolvendo) de forma natural.

“Desde quando Bento era bebê, eu levava para as montagens de exposições. Ele se envolvia, brincava com os artistas, adora participar desta parte. Justamente por isto fazer parte da minha vida, procurei tornar bem tranquilo para ele, não forço nada. Sei que é um pouco diferente de quem não tem isso em casa, não é artista ou trabalha nas artes visuais, mas acho que tem que se levar as crianças sempre, como um programa importante como outro qualquer, não só para praia e parque”, resume Cristiana.

Leia mais sobre a exposição MixMax Brasil no Tropenmuseum Junior.

* O texto foi originalmente publicado no Jornal do Commercio.

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