Bruno Faria faz intervenção artística no topo do Edifício AIP

A entrevista com o artista recifense Bruno Faria sobre a mostra individual The end, com abertura terça-feira (15/04/2014), às 19h, na Sala Nordeste de Artes Visuais (Bairro do Recife), foi dividida em partes. Começou neste espaço expositivo do Bairro do Recife, seguiu no carro pelo Cais da Alfândega, continuou em um prédio e terminou na calçada, em Santo Antônio, em meio à agitação de um fim de tarde no Centro do Recife.  Ao longo de vários pontos do trajeto, ao olhar para o alto, é possível ver algo novo na paisagem: Letreiro objetivo, uma das obras feitas por Bruno, instalada no topo do Edifício AIP (Av. Dantas Barreto, 576, Santo Antônio).

O letreiro de neon com 2m x 12m ficará aceso durante a noite no local onde funcionava o Cinema AIP, da Associação da Imprensa de Pernambuco. Estimular que as pessoas olhem para este lugar e reflitam sobre o que aconteceu com ele, e com outros espaços que são parte da história da cidade, é algo central na proposta do artista.

As obras da exposição foram criadas a partir de uma pesquisa feita por Bruno sobre o local. “O meu trabalho tem uma relação muito forte com a arquitetura, com as questões ligadas às transformações que acontecem nas cidades”, resume o artista.

Na sua última exposição individual no Recife, por exemplo, Bruno apresentou trabalhos elaborados a partir de uma pesquisa sobre a Praça de Casa Forte, projetada pelo arquiteto e paisagista Roberto Burle Marx em 1934. Uma das obras apresentadas na Fundação Joaquim Nabuco, em 2013, era o vídeo Inventário tropical. Para realizá-lo, Bruno alugou um carro de som e saiu lendo o inventário do processo de tombamento da praça pelo Iphan. Ele também convidou os participantes de um workshop a ir até o local, procurar as espécies de planta que faziam parte do projeto original e desenhá-las, por exemplo.

“Em minha obra, há muitas ações para os espaços públicos, gosto de criar dispositivos para estimular o olhar para a cidade, a reflexão sobre o que está acontecendo nela”, ressalta Bruno Faria.

O artista recebeu o Prêmio Funarte de Arte Contemporânea, da Fundação Nacional de Artes, para realizar a exposição The end e, depois de aprovado, continuou aprofundando as pesquisas. “Este Edifício AIP sempre foi uma inquietação muito forte para mim. Quando criança, eu fui ao cinema de lá e hoje ele está neste estado”, continua.

Arquitetura moderna

“O prédio do AIP foi projetado pelo arquiteto português Delfim Amorim (1917-1972), que foi importante para a arquitetura moderna do Recife, autor de diversos projetos, como o Edifício Acaiaca. Tem uma importância arquitetônica, história, que muita gente não sabe”, afirma Bruno.

“O trabalho está relacionado com a falência do cinema, o descaso com a associação, mas também está ligado com a cidade como um todo. O que está acontecendo com o projeto Novo Recife (que planeja derrubar os armazéns no Cais José Estelita), o Edifício Caiçara, a Fábrica Tacaruna. Uma imensidão de questões. Essa é uma área de extrema importância histórica, toda essa área aqui é história. A obra parte do AIP, mas transborda para a cidade como um todo”, destaca.

O artista mostra outras duas obras inéditas na Sala Nordeste de Artes Visuais. Uma delas é a instalação Design prum Brasil Novo, montada na entrada. A escolha se deu porque Bruno notou que muitas pessoas passam pelo local, às vezes entram para entregar documentos, mas não conhecem a galeria.

Bruno fez intervenções usando um acetato sobre 11 pôsteres de filmes brasileiros feitos pela artista Lygia Pape (RJ, 1927-2004). “Queria falar sobre a importância de Lygia como artista, designer, os trabalhos que ela fez no Cinema Novo. Ela era convidada por Glauber Rocha, Nelson Pereira dos Santos, para criar cartazes e letreiros”, conta Bruno.

Associação da Imprensa de Pernambuco

Na superfície de acetato, ele coloca trechos das atas da Associação da Imprensa de Pernambuco e do projeto original. “Ele (o projeto) é muito bonito. Eles falam sobre o objetivo de preservação, de ter uma biblioteca, um museu da imagem e do som, uma escola de cinema, uma pinacoteca, uma galeria de arte. Era o pensamento de ser um centro cultural mesmo. Isto em 1931 é até uma questão de vanguarda”, avalia o artista.

Dentro da sala, é exibido o vídeo The end, que Bruno criou reproduzindo os créditos finais dos cem filmes destacados no livro A magia do cinema, de Roger Ebert. “Eu penso na relação com a própria arte. Nunca uma lista vai dar conta de tudo o que é importante”, conclui.

* O texto foi originalmente publicado no Jornal do Commercio.

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