Coque conta sua história no Museu da Beira da Linha

O Museu da Beira da Linha do Coque nasce do coletivo, tanto pela maneira como foi idealizado e funciona, quanto pelas características do acervo, composto por histórias narradas por moradores – contadores e contadoras da memória do bairro do Coque. O museu também é itinerante e, a partir de quarta-feira (16/04/2014), às 19h, até maio, pode ser visitado na Galeria Vicente do Rego Monteiro, da Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj Derby). Além dos depoimentos, as pessoas poderão ver fotografias e documentos. Ocorrerão ainda encontros abertos ao público.

Desde 2009, o Ponto de Cultura Espaço Livre do Coque trabalha no projeto, definindo como ele seria e gravando as entrevistas. O Museu da Beira da Linha foi lançado em agosto de 2013, na Praça Barreto Júnior, durante o evento Coque Rexiste. Com a exposição na Fundaj, o acervo será mostrado ao público pela primeira vez. Mas, em breve, será publicado no Benfeitoria, o projeto de financiamento coletivo da Ciclotela da Beira da Linha. O triciclo, adaptado com equipamento de projeção, será usado para levar o acervo a espaços públicos.

“Contaremos, nesta exposição, um pouco da nossa história de ocupação e resistência. São vários assuntos, terreiro, time de futebol, os aterros… Este é o começo da realização do nosso sonho”, afirma o coordenador geral do Ponto de Cultura Espaço Livre do Coque, Rildo Fernandes.

 

“Minha luta é permanente e antiga pelo Coque. Somos alvo da especulação imobiliária, financeira. Já foram oito expulsões”, continua ele. “Moramos em uma terra ambicionada. Antigamente, era charmoso trabalhar perto do Centro e morar lá longe. Hoje em dia, com esse trânsito, eles não querem mais. Eles perdem dinheiro. Hoje, querem arranha-céu, torres no Cais da Alfândega… Isso é desenvolvimento para eles, mas para a gente não. Já temos nossa casinha, nosso comércio, a gente precisa de sossego. Faltam oportunidades, a gente precisa de escola, por exemplo”, completa Rildo.

“Estamos vendo esta experiência na Fundaj como um porto. Transferimos o museu para cá por um tempo, mas a ideia não é estar aqui só para se apresentar. O Coque está muito perto e muita gente não vê. É preciso criar contato”, salienta a arquiteta e organizadora da exposição Cristina Gouvêa, que Rildo considera como uma madrinha do museu.

“O processo de apresentar o projeto já tem gerado algumas respostas, como a do Museu da Cidade do Recife, para fazer pesquisas e estabelecer possíveis parcerias, e o convite da Fundaj. Apesar de ter uma sede no Ponto de Cultura, o museu só está completo no contato com o público, nos espaços públicos”, argumenta Cristina.

“Ele é um museu vivo. Uma história viva é contada nos vídeos, nas fotos, nas reportagens. E ainda tem as novas que vão chegando. Temos 16 contadores até o momento”, afirma Rildo, explicando que dois já faleceram. Cristina destaca, neste processo, “que a criação da sensação de pertencimento é primordial para a luta por um lugar”. “É tomar para si um lugar de fala da sua própria história. Ao fazer isto, você está diluindo fronteiras”, diz.

 

Em porta-retratos na galeria, são apresentados os contadores e assuntos dos vídeos. “Se a pessoa quer saber alguma coisa sobre o terreiro, por exemplo, ela olha aqui e assiste a entrevista com o Pai Jurema. É um sonho nosso que está começando aqui. O segundo é a Ciclotela e queremos um ônibus para o futuro. Queremos levar nossa experiência para outras comunidades também e não guardar só para nós”, planeja Rildo.

Além das entrevistas, compõe a exposição, por exemplo, uma imagem aérea que será preenchida como se fosse um mapa de memórias, localizando o que foi citado nos vídeos. Também serão apresentadas duas filmagens que estão em processo (Sons e as imagens de um domingo no Coque e Localidade do Coque), junto a entrevistas com os integrantes do Ponto de Cultura.

* O texto foi originalmente publicado no Jornal do Commercio.

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