Abelardo da Hora: Arte que se confunde com o Recife

O Recife verte caudaloso na obra de Abelardo da Hora. Cenas e personagens que podem ser vistos na cidade também podem ser encontrados nas obras do artista que, ainda na época da Escola de Belas Artes de Pernambuco, fez o convite: “Vamos desenhar e pintar lá fora!”. Desde muito jovem, o homem que celebra hoje seu aniversário de 90 anos tem eternizado o que vê à sua volta em esculturas, desenhos, gravuras, painéis, peças em cerâmica e tapeçaria. Da mesma maneira, a obra de Abelardo Germano da Hora, filho de camponeses e nascido no Engenho Tiúma, de São Lourenço da Mata, faz parte da paisagem da capital pernambucana, é presença marcante em muitos espaços públicos da cidade. Quantas crianças já brincaram entre as figuras d’Os Cantadores no Parque 13 de Maio (Boa Vista), por exemplo?.

Além disto, outra face do trabalho de Abelardo da Hora também deixou marcas no cenário cultural da cidade. Entre outras contribuições, ele se envolveu na política, participou do Movimento de Cultura Popular (MCP) e foi preso várias vezes durante a ditadura militar, fez obras que chamam a atenção para a fome e injustiças sociais, fundou, com Hélio Feijó (1913-1991), a Sociedade de Arte Moderna do Recife (SAMR) e foi professor de vários artistas.

Tudo isto está bem vivo para quem atravessa a porta branca da casa e ateliê de Abelardo, na Boa Vista. Berço de novos trabalhos, o lugar guarda peças que formam uma espécie de mosaico. Cada uma representa capítulos destas vidas em permanente movimento – a do artista e a da cidade. Elas dividem espaço pelos corredores, paredes e sobre os móveis. Estão perto de seus protótipos, livros e objetos.

Com voz calma e um discurso firme e claro, como a memória de seu dono, Abelardo conta cada história com atenção. Revela detalhes das criações, a técnica utilizada, um ângulo que ressalta a beleza da escultura e a trajetória de uma obra, como a gravura em gesso Enterro do camponês (1953). Ela fez parte de uma mostra do Clube da Gravura de Porto Alegre e, naquele ano, viajou pelo mundo.

Enterro de Camponês (1953), gravura de Abelardo da Hora. Foto: Thomas Baccaro.

Anos mais tarde, em 2011, outra mostra itinerante entraria na trajetória de Abelardo, celebrando seus 60 anos de criação artística. Amor e solidariedade foi a Brasília, Rio, São Paulo, João Pessoa e chegou ao Recife na inauguração do Parque Dona Lindu. Sua primeira exposição data de 1948.

“O amor eu dedico às mulheres, porque sem a mulher não existiria nada. E a solidariedade eu dedico ao povo. Ora exaltando a criatividade popular, como nas Danças brasileiras de Carnaval (1962), ora lutando de braços dados com o povo contra as injustiças sociais. Mostrando as injustiças sociais, como na série Meninos do Recife (1962) para retratar onde vivem as crianças do Recife, completamente desassistidas, abandonadas, em palafitas dentro da maré, na lama”, resgata o artista ao falar sobre os termos que batizaram a retrospectiva.

Duas obras que fazem parte da série Danças Brasileiras de Carnaval (1962), de Abelardo da Hora. Foto Thomas Baccaro
Duas obras que fazem parte da série Meninos do Recife (1962), de Abelardo da Hora. Foto Thomas Baccaro

Da exposição, faziam parte algumas esculturas de mulheres sensuais, representantes de uma das faces mais conhecidas do trabalho do artista. Com materiais como cimento polido, bronze e gesso grafitado, ele criou vários destes seres voluptuosos de pernas longas. Figuras que parecem ter seus cabelos agitados pelo vento ou repousam lânguidas na rede. Esta arte sensual também se traduz em casais abraçados ou aos beijos, a exemplo de Relevo para o amor de Abelardo e Margarida (1998) e Amor (2005), ambas em cimento polido, ou de Cópula (1949) e Beijo (1958), criadas em bronze e com formas mais arredondadas.

A expressão das injustiças sociais é igualmente forte e reconhecida na trajetória de Abelardo. Dela fazem parte obras como a escultura em bronze A fome e o brado (1947). Outras linhas definem estes corpos. Mais retas, traçam rostos marcados pela fome, pela dor. Seres expressivos, eles parecem falar. Não há como permanecer indiferente ao grito da Mãe com filho doente (1979), feita em cimento com banho de ácido – mesmo material de Hiroshima (1956), Estela para mulheres e crianças abandonadas (1978) e Desamparados (1981), para citar apenas algumas deste grupo.

Esculturas Beijo (1958) Amor (2005), de Abelardo da Hora. Foto: Thomas Baccaro
Esculturas Hiroshima (1956) e A Fome e o Brado (1947), de Abelardo da Hora. Foto: Thomas Baccaro

Da mesma maneira, é impossível não pensar nas inúmeras crianças que vivem, hoje, em condições semelhantes (ou iguais) à dos retratados por Abelardo na série de desenhos a bico de pena de 1962. O conhecido álbum Meninos do Recife, no qual também há um poema escrito pelo artista, representa estes seres humanos dormindo na rua, em moradias precárias, catando comida na lama em meio a urubus.

Um dos desenhos foi escolhido por Josué de Castro para ilustrar a edição francesa do clássico Geografia da Fome. Além da sensibilidade no tema, destaca-se também a maneira como o artista dá um aspecto quase tridimensional às figuras e paisagens.

O lado festivo da obra de Abelardo pode ser exemplificado por séries como Danças Brasileiras de Carnaval (1962) ou É hora de Brincar (2004). Sobre este conjunto mais recente, resumiu anos atrás o curador Renato Magalhães: “São estas mesmas crianças brincando ao ar livre, como ele gostaria que fosse”.

“Fiz menino empinando papagaio, jogando pião, crianças pulando corda, meninas brincando com a boneca, uma menina fazendo bola de sabão. Estes são aguadas coloridas, eu vou fazer depois um álbum e quero escrever também um poema de abertura”, planeja Abelardo.

Em Danças Brasileiras de Carnaval (1962), o artista apresenta passistas, músicos, um casal de mestre-sala e porta-bandeira, o maracatu e outras expressões culturais. Os detalhes das roupas e as formas desenhadas pelos corpos que dançam são bem usados nas composições.

A festa faz parte das lembranças de juventude de Abelardo, cuja família mudou-se para a Usina São João da Várzea em 1928. Depois, o artista fez seu curso primário em uma escola na Iputinga. “Aquela Avenida Caxangá todinha era o nosso reino, meu e do meu irmão Luciano. Nós brincávamos juntos. Eu fui com meu irmão e minha irmã muitas vezes a matinês do Bobos em Folia. Porque minha irmã gostava, já era uma mocinha, e minha mãe disse: ‘Você só vai se for acompanhada por seus irmãos’. Aí nós íamos com ela, mas a gente deixava ela solta na buraqueira e caía no passo”, lembra com um sorriso.

Obra da série É Hora de Brincar (2004), de Abelardo da Hora. Foto: Thomas Baccaro

* O texto foi originalmente publicado no Jornal do Commercio como parte de um especial pelo aniversário de 90 anos de Abelardo da Hora, junto com o texto reproduzido no post Abelardo da Hora: Uma vida de militância e ensinamentos.

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