Abelardo da Hora: Uma vida de militância e ensinamentos pela arte

Depois da infância neste mundo “de camponeses e trabalhadores”, como o próprio Abelardo da Hora define, e do período de estudos no Grupo Escolar Fernandes Vieira, na Iputinga, chegava a hora de continuar a formação. Ao falar sobre o passado, o pernambucano lembra de uma preocupação da mãe dele, Severina Maria Germano da Hora, em relação ao futuro dos filhos: “Fiz meu curso técnico porque a minha mãe dizia: ‘Eu quero que vocês façam o colégio industrial, porque vocês já saem com uma profissão. Depois, no curso superior, vocês fazem o que quiserem”. Nós escolhemos artes decorativas, eu e meu irmão Luciano”.

A partir desta experiência no Colégio Industrial Professor Agamenon Magalhães, o ensino da arte continuaria ligado a momentos importantes na vida de Abelardo, seja no papel de aprendiz ou no de repassar seus conhecimentos. O artista também concluiu o bacharelado na Faculdade de Direito de Olinda, mas não chegou a exercer esta profissão.

“Tinha um dia da semana em que o professor dava liberdade para o aluno fazer qualquer coisa da sua imaginação e, como na minha casa iam muito repentistas, porque a minha mãe gostava demais e meu tio também, comecei a fazer a estatueta de dois repentistas. Meu professor de pintura, Álvaro Amorim, parou e disse: ‘Seu professor de escultura já viu a sua peça?’. Eu disse: ‘Ainda não'”.

Álvaro chamou o colega para compartilhar o que via, elogiou o aluno e prometeu que levaria Abelardo para a Escola de Belas Artes de Pernambuco, quando ele terminasse o curso no Colégio Industrial. Foi o que aconteceu. Em 1939, o jovem passou a frequentar a escola da qual Álvaro foi um dos fundadores. A instituição funcionava na Rua Benfica, na Madalena. Além de ter aulas, Abelardo entrou no diretório estudantil da escola, do qual foi eleito presidente em 1940.

Foi nesta época que ele pensou: “Vamos acabar com esse negócio de ficar desenhando só dentro da escola”. A ideia acabou colocando-o no caminho do pai daquele que seria um de seus aprendizes, Francisco Brennand, outro pernambucano que trilhou um caminho próprio e muito fértil nas artes visuais, além de criar obras que também são icônicas na paisagem do Recife – duas coincidências entre os velhos amigos.

Em uma destas saídas, o industrial Ricardo Brennand viu Abelardo desenhar o retrato de uma colega em meio ao grupo de jovens na beira do açude. Convidou o rapaz, filho de um dos seus ex-funcionários, José Germano da Hora, a trabalhar com cerâmica artística e morar na casa da família. Três anos mais novo que Abelardo, Francisco contaria ao pai algum tempo depois o caminho que escolheu. “Ele me chamou e disse: ‘Abelardo, você tirou o advogado da família’. Eu respondi: ‘De maneira nenhuma, ele é que tem vocação’. ‘Você acha?’. ‘Demais’… ‘Então tome conta dele’, ele falou”, recorda Abelardo.

Outro encontro artístico se tornava realidade anos mais tarde. Depois da exposição de estreia, na Associação dos Empregados do Comércio do Recife, e da criação da Sociedade de Arte Moderna do Recife (SAMR), lá estava Abelardo participando da fundação do Atelier Coletivo da SAMR, em 1952. “Pensei em fazer um curso de iniciação às artes, conseguimos uma sala no Liceu de Artes e Ofícios e eu comecei a dar aulas gratuitas de artes plásticas”, continua o artista.

Quando o grupo alcançou cerca de 20 integrantes, foi preciso encontrar um novo local. Os artistas foram para a Rua da Soledade e depois para uma casa na Rua Velha, ambas no bairro da Boa Vista. “Gilvan Samico, Wellington Virgolino, Wilton de Souza, Ionaldo Andrade, Bernardo, Adão Pinheiro, Guita Charifker, Maria de Jesus, Celina Lima Verde, os irmãos Genilson e Cremilson Soares, Campelo Neto, José Cláudio, essa gente toda. Eles se transformaram em grandes artistas”, comenta Abelardo.

Nesta época do Atelier Coletivo, foram criadas obras de Abelardo da Hora que ainda apresentam a cultura e a história de Pernambuco em espaços públicos do Recife. É o caso, por exemplo, d’Os cantadores, no Parque 13 de Maio (Boa Vista), e d’O sertanejo, na Praça Euclides da Cunha (Madalena). Uma delas, a Torre Cinética e de Iluminação, deveria estar na Praça da Torre, onde foi construída em 1961. A peça, que se movimentava pela ação do vento, foi destruída durante a Ditadura Militar.

Mas a atuação de Abelardo da Hora permanece ainda em obras de outros artistas. Reflexo de um projeto de lei sugerido por ele e aprovado na Câmara Municipal do Recife, que determina a colocação de obras de arte em construções com mais de mil metros quadrados. “Eu queria transformar o Recife em uma espécie de galeria de arte.” E conseguiu.

História da Torre Cinética e de Iluminação foi lembrada na exposição Abelardo da Hora – da indignação à esperança, organizada quando o artista foi homenageado pelo 4º Congresso Internacional Sesc/PE e UFPE de Arte/Educação junto com o professor, ator e diretor de teatro Carlos Varella (in memoriam)

* O texto foi originalmente publicado no Jornal do Commercio como parte de um especial pelo aniversário de 90 anos de Abelardo da Hora, junto com o texto Arte que se confunde com o Recife .

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