Xirumba fotografa a Praia de Boa Viagem e comenta mudanças da orla

Uma conversa em um bar no Rio de Janeiro instigou o fotógrafo Xirumba a desenvolver uma série que revela várias facetas da praia de Boa Viagem, daquelas que não se revelam para o olhar apressado ou descuidado. O livro Deu praia é composto por 140 fotografias feitas por ele durante andanças por esta região litorânea. A dinâmica usada por Xirumba para fazer o trabalho combina com o formato escolhido para lançamento da obra. O evento é realizado sábado (18/10/2014), das 10h às 16h, em uma tenda montada na areia da praia de Boa Viagem, pouco antes do 3º Jardim (na altura do número 2294).

O amigo com quem Xirumba conversava no bar carioca, em 2010, era o também fotógrafo Cafi (como é conhecido o pernambucano Carlos Assunção Filho). “Tínhamos acabado de sair de uma exposição de fotografias de Peninha e paramos no bar para tomar uma cerveja. Chegou uma hora em que Cafi queria ir para a casa dele e eu queria ficar no bar mais um pouco. Ele me disse que estava morando na praia mais bonita do Brasil. Eu respondi: ‘Peraí Cafi, a praia mais bonita não é Copacabana, é Boa Viagem’. Mas lancei essa polêmica mais porque eu queria tomar outra cervejinha”, lembra Xirumba sorrindo.

De considerações sobre a água morna e as piscinas naturais, ou que o Pão de Açúcar não contava como quesito, por exemplo, a conversa continuou. “Nessa discussão, ficamos lá até umas 5h da manhã, quando o dono do bar apareceu dizendo que não tinha mais cerveja. Cafi foi para a casa dele e eu voltei para o Recife no mesmo dia”, completa Xirumba.

Da provocação entre amigos – que lembra as ocasiões em que alguém tenta provar que o maior/melhor/mais antigo qualquer coisa está em Pernambuco – surgiram na mente de Xirumba reflexões sobre a praia de Boa Viagem, como se a experiência desse um corpo para algo que o fotógrafo pensava e sentia.

 

Preservação ambiental

“Já fotografava a praia de Boa Viagem há um tempo e tinha uma discussão sobre a questão da cidadania. Apanho o lixo que encontro há 20 anos. Digo que antes eu tinha a barriga grande e a cabeça pequena. Depois deste tempo fazendo isso, tenho a barriga pequena e a cabeça grande de tantos pensamentos. Fico refletindo sobre as coisas enquanto recolho o lixo”, explica.

Além desta questão sobre preservação ambiental, as caminhadas de Xirumba possibilitavam que ele observasse o que havia no entorno com mais proximidade. “Olhava a beleza que existe atrás daquele lixo trazido pelo Rio Capibaribe, que sofre do mesmo jeito que os cidadãos sofrem com a falta de saneamento. Olhava as marias-farinhas, as cores, as luzes, as texturas da areia da praia. Minha ideia era que o livro mostrasse a praia com algo dos anos 1950-1960”, comenta.

É como se, ao fotografar as belezas da praia, Xirumba continuasse chamando a atenção para as questões políticas e sociais que envolvem este ambiente. “As praias do litoral pernambucano são lindas. Porto de Galinhas, por exemplo. Há dez anos, era o que Boa Viagem e as praias de Olinda foram há 20, 30 anos. Hoje Boa Viagem sofre com a sombra dos prédios e o mercado sobre a areia quando é feito sem nenhum cuidado”, alerta ele.

“Aquela zoada e a sombra dos prédios começaram a esconder as belezas que a praia tem. Quando tive aquela discussão com Cafi foi como um tratamento de choque. Boa Viagem é linda e comecei a prestar mais atenção nos detalhes, no lado poético e romântico que a praia ainda tem. Queria mostrá-la como era nos anos 1970-1980, sem tantas interferências. Disso também veio a vontade de lançar o livro na praia, de mostrar o lugar para as pessoas”, explica.

As fotografias de Xirumba apresentam uma gama de aspectos, texturas e a luz em diferentes momentos do dia. Os pequenos animais. As formas criadas pelas ondas ao bater nos arrecifes ou marcas deixadas na areia pelo movimento da maré. Os que frequentam o local a trabalho ou lazer.

Xirumba é autor de um dos textos da obra, também publicados em inglês (o livro e o lançamento têm copatrocínio da Empetur/Secretaria de Turismo/Governo do Estado). O articulador cultural Roger de Renor e o cineasta Lírio Ferreira foram convidados a colocar em palavras as memórias deles relacionados à praia recifense.

O título do livro, por sinal, veio da pergunta com a qual Lírio cumprimentava Xirumba ao encontrá-lo nos lugares (“E aí? Deu praia?”). “Convidei Lírio e Roger, hoje senhores e ex-meninos da praia de Boa Viagem, para que a rapaziada de hoje pudesse saber como era a praia naquela época. Eles fizeram textos lindos”, avalia Xirumba.

* O texto foi originalmente publicado no Jornal do Commercio

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