Fotógrafo Ricardo B. Labastier reúne três ensaios em Abismo da Carne

É como se houvesse uma linha invisível conectando cada uma das 31 fotografias da exposição Abismo da carne. Algo tão forte quanto as cores, as texturas e os corpos que se revelam, em partes, nas obras do fotógrafo olindense Ricardo Labastier. Os três ensaios, sem local ou tempo delimitados, formam um conjunto que convida o observador a parar e interpretá-lo. A exposição é inaugurada terça-feira (13/01/2015), às 19h, na Arte Plural Galeria e será aberta ao público amanhã.

Imagens de Lumaria, Aos olhos do pai e Oxalabá compõem a exposição. Elas fazem parte de ensaios, mas, ao invés de “temática”, Labastier escolhe a palavra “entradas” ao falar sobre cada grupo, como se eles correspondessem a mergulhos dados durante a vida.

“Com o volume de trabalho, ao longo do tempo, percebi que a temática, na verdade, estava em mim. Na época em que morava em Brasília, comecei a querer fotografar as igrejas barrocas daqui. Trabalhei com estes simbolismos, as texturas das velas derretidas, destas coisas meio destruídas. Fui pela dramaticidade”, exemplifica ele, apontando para fotos de Aos olhos do pai.

Elas foram feitas em Pernambuco, Paraíba e Bahia. Labastier não “documenta” o barroco. Vai pelos detalhes que remetem a experiências e sensações, em conexões que não são óbvias ou imediatas.

Antes deste ensaio nasceu Lumaria, em saídas pelo Nordeste em busca de cor. “Ali eu trabalhava com uma paleta baixa. Usava um filme Provia, que na luz da manhã e do fim da tarde azulava um pouco. Eu trabalhava com esta paleta para fotografar o Brasil do meu jeito”, esclarece.

Além do trabalho com a cor, a fragmentação nas composições é uma das características que logo aparecem neste conjunto. Ele também guarda suas histórias. Uma das primeiras fotos que se vê na Arte Plural Galeria mostra o tronco de um homem. Labastier viu a cena em uma feira, mas lembrou de um beijo que recebeu do pai. “Não foi a cena fotográfica que me cativou. A luz era bonita, mas por algum motivo, naquele momento, eu lembrei dele”, afirma.

Várias outras lembranças são recuperadas pelo fotógrafo enquanto ele fala sobre a própria obra. “Os aniversários da família, aquela luz amarela, minhas tias cantando com batom vermelho, as mãos batendo palmas, os enfeites. Tudo isso fica aqui dentro. Quando saio para a rua lembro um pouco disso, não saio só com a câmera”, afirma.

Ao ser convidado para o PhotoEspaña, um importante festival realizado em Madri, Labastier conheceu pessoalmente Hirosuke Kitamura, japonês de Osaka que mudou-se para Salvador. O pernambucano conhecia as fotografias de Hirosuke nos bordeis da capital baiana e, tempos depois, propôs que ele o acompanhasse ao fotografar naquela região. “Fui mais pela questão onírica. Não tem a coisa da documentação. O vermelho para mim lembra a paixão, o fim das coisas, o sangue”, interpreta ele sobre Oxalabá.

Livro Abismo da Carne

Abismo da Carne já esteve na DOC Galeria, em São Paulo, no festival Fotograma: 13, em Montevidéu (URU), e no Festival de Fotografia de Tiradentes (MG). O projeto de um livro foi contemplado no Prêmio Funarte Marc Ferrez de Fotografia e lançado, em 2014, pela parceria Olhavê/Tempo d’Imagem. Para Labastier, realizar esta exposição é como finalizar um ciclo. A experiência também é bastante significativa para ele, que já expôs em vários países, mas ainda não tinha uma individual no estado onde nasceu.

É também a primeira vez que Labastier trabalha com uma curadoria: foi com a pesquisa da antropóloga Georgia Quintas no acervo do fotógrafo que nasceu esta mostra. “Através do universo fotográfico de Ricardo Labastier, os significados não despem apenas a representação. Ao contrário, mergulham no abismo da carne. Esbarram em aparições, além das aparências. Pois não seria nosso olhar o cadafalso a abrigar percepções em nosso imaginário? O abismo virou a prosa da busca em compreender vestígios de quem somos”, escreveu Georgia.

O texto foi originalmente publicado no Jornal do Commercio.

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