A saudade na fotografia brasileira, pelo curador Diógenes Moura

A saudade é algo que conecta, de maneira poética, as mais de cem obras de fotógrafos brasileiros com as quais o curador Diógenes Moura construiu a exposição A arte da lembrança – A saudade na fotografia brasileira. Ela está presente nas imagens que sugerem a ausência de alguém, remetem às lembranças de um lugar ou época. Pode aflorar de uma experiência pela qual muitos já devem ter passado, a de lembrar de algo vivido a partir de algo visto ou do cheiro. A mostra foi inaugurada sábado (24/01/2015) no Itaú Cultural (São Paulo), abrindo a programação de 2015 deste espaço paulistano. Os organizadores já buscam parcerias para fazê-la viajar, pelo menos, até o Recife e Belém, capitais dos Estados onde nasceram muitos dos fotógrafos participantes da coletiva.

Os pernambucanos do grupo são Alcir Lacerda (1927-2012), Benício Dias (1914-1976), Fred Jordão, Gilvan Barreto, Juventino Gomes (1902-1988), Márcio Lima e Wilson Carneiro da Cunha (1919-1986). De Alexandre Berzin (1903-1979), letão que se estabeleceu em Pernambuco após passar por Belém, também foram escolhidas algumas imagens.

Ao todo, a exposição apresenta obras de 36 fotógrafos em dois andares do Itaú Cultural. São 110 fotos, organizadas em um percurso que começa pelo mar. Nesta parte da exposição, em uma cena fotografada por Juventino Gomes na década de 1930, o Graff Zeppelin sobrevoa o Bairro do Recife, que alguns pernambucanos ainda têm na memória da cidade.

“À medida em que olha cada uma dessas imagens, você pode ver cada um de nós. Alguma coisa contida nelas nos faz sentir algo que você nem sabe o que é, mas sente. É algo subjetivo, mas real. Escolhi estas fotos feitas em 1930 e a exposição vem até setembro de 2014, com fotos feitas em Belém do Pará por Wagner Almeida. Ele desenvolve um trabalho sobre os homicídios em Belém”, cita Diógenes.

A saudade após a partida de alguém ou relacionada a uma perda mais subjetiva, é uma das interpretações que podem ser extraídas ao se observar o conjunto. Diógenes lembra que a saudade, no todo da exposição, não é aquela dolorida, do sofrimento. “Cada imagem fala por si só. Nesta coletiva, um desafio da curadoria foi diagramar tudo isso junto. O resultado é que cada fotógrafo dialoga com o outro”, explica ele.

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O projeto expositivo foi pensado com uma forma arredondada, sugerindo algo sem fim. Diógenes optou por escolher, no mínimo, duas obras de cada fotógrafo, para que o visitante pudesse conhecer um pouco mais sobre a criação de cada um. Entre os selecionados há dois vídeos: Sonoro diamante negro, de Suely Nascimento, sobre uma das mais antigas aparelhagens do Pará, e Vazio, realizado por Alberto Bittar após o fim de um relacionamento.

Diógenes, pernambucano radicado em São Paulo, pesquisa sobre o tema da saudade há cerca de dez anos. E esta exposição reflete outro elemento da maneira como ele vê o mundo. Não apenas no âmbito profissional, a fotografia e a literatura estão ligadas na vida do curador e poeta.

“Eu não teria como escapar disto. Nasci no Hospital Português, meus primeiros momentos de vida no Recife foram na Rua do Lima. Mas meu avô tinha uma casa grande em Tejipió, um sítio. Lá foi construído um caramanchão e nele foi plantada uma parreira. Embaixo dela, meu avô contava a história da nossa família com um álbum de fotografias, falava da aldeia onde ele nasceu, do Algarve, em Portugal”, recorda.

“E tínhamos na família um poeta, Carlos Pena Filho. Nesses domingos, não era nada marcado, havia uma grande movimentação na casa para receber as pessoas. Tia Laurinha, Carlos e outros filhos. Acontece que toda vez que se falava da presença de um poeta, era como receber a presença de uma pessoa sagrada. Aquilo me marcou muito”, explica Diógenes.

A exposição fica em cartaz até março. Para hoje e os domingos de fevereiro estão programadas conversas sobre temas relacionados com a mostra. O primeiro, no dia do aniversário da capital paulista, é “Vestígios na cidade: a cidade de São Paulo e suas transformações”.

* O texto foi originalmente publicado no Jornal do Commercio.

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