A obra do artista Raul Córdula pela pesquisadora Joana D’Arc Lima

Com uma trajetória múltipla, pautada em sua maior parte pelo rigor, pela forma e pela experimentação, o paraibano radicado em Olinda Raul Córdula tem sua obra e atuação revista. Após entrevistas com o artista e acesso a um vasto acervo nasce Raul Córdula: Poéticas, que é lançado quinta-feira (16/04/2015) , às 19h, na Arte Plural Galeria. A publicação analisa a atuação artística dele, bem como a de professor, crítico e curador. Os textos são da pesquisadora Joana D’Arc Lima, que faz um pós-doutorado em História na Universidade Federal de Pernambuco (UFE), tendo como mote de pesquisa uma obra de arte postal de Raul: O país da saudade (1982).

A corrente de arte postal é o foco da segunda parte do livro. Com o texto, são reproduzidos cartões nos quais os artistas escreviam, faziam colagens ou desenhos, atendendo ao recado carimbado no papel. “Por favor, interfira e devolva”. A série se transformou, nas palavras de Joana, em “um arquivo de histórias, memórias e os entrelaçamentos de vidas e poéticas”.

“Raul Córdula, ao propor essa rede de intercessores, certamente não imaginava que estaria construindo um arquivo, um dispositivo de memória do futuro. Este abre janelas para olhar o Brasil dos anos 1960, 1970, 1980 e os efeitos, ecos e permanências das experimentações, criações e expectativas de um País que sente saudade”, segue escrevendo a pesquisadora sobre a experiência da qual participaram Alex Flemming (SP), Almandrade (BA), Jomard Muniz de Britto, Jota Medeiros (RN) e Maurício Silva, entre outros.

Para a pesquisa documental, o livro contou com o trabalho de Amélia Couto e Mariana Ratts. A primeira parte de Raul Córdula: Poéticas aborda aspectos da vida e obra do artista. Por este caminho, o leitor pode observar como experiências pessoais, escolhas estéticas e temas, entre outros elementos, se associam ao longo do tempo.

“Na impossibilidade de dar conta de todas as ocorrências e fabricações da inquietante e gigantesca obra do artista e de sua pulsante existência, recorremos a um recorte temático que possibilitou a construção da presente narrativa”, diz a pesquisadora.

“Me redescobri durante o processo. Vários aspectos do meu trabalho foram colocados todos à minha frente. Foi uma garimpada muito interessante. Não é um catálogo – como são muitos livros feitos sobre artistas. O texto de Joana é denso, embora seja fácil de ler. Ela fez uma análise muito interessante. Estou orgulhoso de ter um livro como esse, pois agora posso mostrar melhor meu trabalho às pessoas, ter uma comunicação melhor”, enfatiza Raul, autor de muitos livros e textos críticos, nos quais ele assume o papel de apresentar e estudar a obra de outros artistas (no livro Utopia do Olhar, fala sobre a história da arte visual em Olinda).

Após o lançamento, Raul Córdula: Poéticas poderá ser comprado na Arte Plural Galeria ou pela internet, sem data de venda ainda em livrarias. O projeto foi incentivado pela Lei Rouanet. As entrevistas de Raul feitas por Joana serão disponibilizadas, no futuro, pelo Laboratório de História Oral e Imagem do Departamento de História da UFPE . Parte da documentação usada será publicada no site do Instituto Raul Córdula.

A abstração trilhando caminhos

O primeiro capítulo do livro retoma um acontecimento de 1959. No teatro da antiga Faculdade de Direito de João Pessoa (PB), Raul Córdula, então com 16 anos, assistia a uma palestra do poeta Jomard Muniz de Britto. Os dois se tornariam amigos e, além deste fato, mais um desdobramento daquele encontro é lembrado por Joana.

“É possível afirmar que tenha sido esse momento – gravado em seu corpo e narrado anos depois em entrevista e, em parte, em sua obra autobiográfica Memória do olhar (2009) – o marco que tornou o jovem Raul Córdula em um artista de extrema sensibilidade social, estética sofisticada e contemporânea”, afirma a pesquisadora em seu texto para, em seguida, citar parte de um dos depoimentos de Raul que foram compilados na publicação a ser lançada: “Foi ali que aprendi sobre poesia e metalinguagem, sobre texto e contexto, sobre modernidade versus novidade”.

O livro bilíngue (português/inglês) segue com uma abordagem sobre o cenário das artes plásticas na Paraíba no período entre os anos 1950 e 1960, sobre as “redes e lugares de sociabilidades, de formação e exibição” daquele período. Algumas fotografias e recortes de jornais de cada época, além de reproduções das obras de Raul, acompanham as palavras de maneira constante no livro.

A presença da abstração ou figuração, a escolha dos materiais e o contexto que envolve a produção do artista são lembrados a cada momento. Há um capítulo focado no ano de 1968, para citar apenas um caso.

Após a parte dedicada a uma apreciação de O país da saudade, a trajetória de Raul é apresentada e comentada no próximo trecho da publicação. O livro também traz uma cronologia, na qual são citadas as exposições e os trabalhos desenvolvidos por ele como gestor e curador. Antes da bibliografia, há uma lista com artigos e textos críticos de Córdula, orientando aqueles que desejarem expandir suas pesquisas.

* O texto foi originalmente publicado no Jornal do Commercio.

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