Gilvan Barreto e Albert Camus nas fotografias do livro Sobremarinhos

Reler um livro em diferentes fases da vida pode fazer com que aquelas mesmas palavras adquiram significados diferentes. Um detalhe, antes despercebido, se revela, um acontecimento é interpretado de maneira distinta, um personagem é compreendido de outro jeito. Por isso, há leitores e autores (ou livros) que se reencontram ao longo do tempo. No caso do fotógrafo Gilvan Barreto, uma conexão assim ocorre com a obra de Albert Camus. Existe um elo entre o Diário de viagem (1978) do autor franco-argelino e Sobremarinhos, livro que o pernambucano lança quarta-feira (29/4/2015), às 19h, no Capibaribe Centro da Imagem (CCI), na Boa Vista.

Gilvan cita outras obras de Camus ao falar sobre seu processo de criação, como O estrangeiro. “Acho que nem fotografava ainda na época em que li pela primeira vez. E volta e meia volto a ler, me marcou muito. Está presente sempre, faz parte de uma biblioteca afetiva”, afirma. “Tem livros que acompanham a gente a vida toda, ou grande parte dela.”

A sensação de empreender uma viagem (entendida como ato de fazer um percurso em direção a um lugar ou algo mais pessoal, de jornada e busca) pode ser lida ao longo da obra, em diversas configurações.

O próprio design do livro tem uma conexão com a dinâmica das águas. Ao invés de ter páginas presas, em ordem fixa, Sobremarinhos é formado por 20 folhas unidas de maneira transitória. A sequência sugerida pelo artista pode ser transformada de acordo com a vontade de quem põe a obra nas mãos. “Aquilo pode ser solto e o leitor pode reordenar a história. Como a vida de cada um, que tem um ritmo, uma ordem de acontecimentos, não é previsível. Achei interessante essa brincadeira de remontar o livro, eu queria criar mecanismos. Não é só mostrar a imagem, o livro tem uma história, um conceito”, explica o fotógrafo.

As colagens, que apareciam em Moscouzinho, ressurgem no novo trabalho. Algumas frases são destacadas no texto de Camus ou folhas de papel quase transparente com partes recortadas aparecem sobre as fotos. Às vezes, palavra e objeto se misturam em uma imagem ou página – exemplo deste último caso é a obra na qual se lê “A culpa não é minha” ao lado de várias peças de chumbo.

“Buscando trabalhar com uma terceira dimensão, criei objetos que foram fotografados. E algumas fotos sofreram intervenções. No livro, ele começa falando muito de culpa, repete a palavra dezenas de vezes. Aquilo me chamou muita atenção, desde a primeira vez em que li. O livro é todo mar, sol e culpa. Também trouxe a ideia do chumbo – a capa é um peso apontando para baixo”, cita Gilvan.

Uma janela que aparece em Diário de viagem também inspira o fotógrafo. “Ela diz muito sobre as coincidências entre a vida dele e este trabalho. Abro janelas de edição do texto e isso vai pontuando o livro todo: você pode ver fragmentos do mar através das janelinhas de papel vegetal. É uma coisa muito pequena, um mar íntimo, quase uma fração mínima, uma visão muito pessoal do mar.”

Moscouzinho e O livro do Sol

Fruto do Prêmio Marc Ferrez de Fotografia, Sobremarinhos é a última obra da trilogia iniciada por ele com Moscouzinho (2012) e O livro do Sol (2013). Gilvan comemora o marco dos 20 anos de carreira com o livro lançado hoje. “Quando comecei o primeiro já pensei nos três, só não sabia exatamente os caminhos que eles iam tomar. Gosto de investir na ligação entre a literatura e a fotografia. E da fotografia que é realizada quase como produção cinematográfica, digamos assim, que é preparada para o clique.” E segue: “Vejo vida e morte o tempo inteiro nos três projetos. Tem essa coisa da finitude, das mortes que te forçam a ter algo novo. Assim como pode ser com a própria fotografia: forçar na beira do penhasco para nascer de outro jeito”.

Ainda sobre a relação com a literatura em suas obras, ele reforça, caso paire alguma dúvida: “Não me coloco na intenção de traduzir a obra de ninguém. É uma coisa muito pessoal, não tenho pretensão de justificar, esclarecer algo sobre a obra”.

Diário de viagem

Uma conexão subjetiva que pode ser estabelecida entre as criações de Camus e Gilvan passa pela ideia de diário de viagem, das cartas com as quais se compartilham impressões e sensações. O próprio texto da curadora Cristiana Tejo, que faz parte da obra, é uma carta endereçada a Gilvan, escrita em Portugal, onde ela reside atualmente.

“Os gregos desenvolveram ampla literatura sobre a espera aquática, mas os portugueses inventaram a saudade a partir de sua relação com o oceano, já que suas descendências, amores, horizontes se espraiavam pela costa dos cinco continentes”, afirma Cristiana em um trecho de sua colaboração.

Outro elemento ligado ao sentido de viagem é o cartão que acompanha cada livro, como aqueles utilizados para registrar empréstimos em bibliotecas. “A ideia é de compartilhar mesmo. A pessoa anota no caderninho e coloca na rede social uma foto do cartão. Como uma garrafa jogada ao mar.”

video-livros-gilvan_barreto from Gilvan Barreto on Vimeo.

 

* O texto foi originalmente publicado no Jornal do Commercio.

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