Guia Comum do Centro do Recife apresenta espaços e experiências da cidade

O Guia Comum do Centro do Recife, lançado em 2015, é uma representação artística do território e de aspectos sociais da capital de Pernambuco. A publicação idealizada pela artista Bruna Rafaella Ferrer inclui alguns espaços físicos como os que podem aparecer nos roteiros e guias turísticos, como o Cinema São Luiz e o Teatro do Parque, mas dá bastante atenção aos detalhes, a experiências que fazem parte da memória afetiva dos frequentadores da região e até a lugares que não existem mais.

Os artistas, designers e pesquisadores que colaboraram com textos e imagens para o Guia Comum do Centro do Recife constroem um recorte geográfico e simbólico sobre a capital pernambucana. Basicamente, tendo em mãos esta publicação elaborada por uma perspectiva poética e crítica, as pessoas são convidadas a refletir sobre a cidade.

O convite já estava refletido no formato pensado para o lançamento. Em vez de um evento único, feito numa livraria ou galeria de arte, foram organizados vários encontros com distribuição gratuita da obra, em lugares como o Chá Mate, lanchonete que funciona na loja 28 do Edifício Brasília (Rua Siqueira Campos, 279, Santo Antônio) e o Edifício AIP (na Avenida Dantas Barreto, 576, Santo Antônio), com portas abertas para a rua – os dois lugares são representados na obra.

Ao folhear as páginas do Guia, o leitor é lembrado de que um espaço urbano não é caracterizado apenas pelo que está no plano físico, na relação entre os elementos da geografia natural e os construídos. Existe também o que é fruto da experiência humana nestes locais, como os afetos, as atividades desenvolvidas, as intervenções artísticas etc.

Isso é destacado logo nas primeiras linhas da apresentação da obra, quando se afirma que: “Todo território é subjetivo, já que foi submetido a linhas imaginadas pelo homem”.

No mesmo texto, é revelado que O Livro dos Seres Imaginários, do escritor argentino Jorge Luis Borges, foi uma referência para a criação do Guia Comum do Centro do Recife. No bestiário feito por Borges são descritas 116 criaturas, que o autor classifica entre os que são “(a) pertencentes ao Imperador (b) embalsamados (c) amestrados (d) leitões (e) sereias (f) fabulosos (g) cães vira-latas (h) os que estão incluídos nesta classificação (i) os que se agitam feito loucos (j) inumeráveis (k) desenhados com um pincel finíssimo de pelo de camelo (l) et cetera (m) os que acabaram de quebrar o vaso (n) os que de longe parecem moscas”.

No guia pernambucano, os mais de 40 itens apresentados ao leitor são agrupados na seguinte ordem: Lugares para levantar o olhar, Lugares para baixar o olhar, Lugares que são becos, Lugares para comer pão em formato de bicho, Lugares que resistem, Lugares que não existem, Lugares que se movem, Lugares de uso, Lugares invisíveis, Lugar assombrado cujo acesso é pela água, Lugares de silêncio e Tipos de Recife. E, sobre o mapa da região central da cidade, o desenho de um ser imaginário se destaca: Ouroboro, representação simbólica das ideias de continuidade, movimento, retorno.

Alguns lugares do Recife

Como exemplo da maneira como são organizadas as categorias acima, escolho um trecho da introdução sobre os Lugares para levantar o olhar: “Para olhar o Recife, não basta a altura dos olhos. A paisagem na linha do horizonte pode até mostrar as águas do mar e do Rio Capibaribe e suas pontes de cartão-postal. Pode revelar um comércio informal desorganizadamente organizado. Pode ainda escancarar a segregação recifense contemporânea em fileiras de carros de vidros fechados e muros concretos e guaritas de prédios. Mas, para se abrir ao Recife, é preciso olhar de baixo. É preciso olhar para cima”.

Pertencem a esta parte do livro as gárgulas que adornam o telhado do Mercado de São José, o Pátio do Terço, as gambiarras e podas das árvores (item acompanhado por um texto do site humorístico Diário Pernambucano sobre a fiação elétrica do Recife sendo transformada em patrimônio da humanidade) e, por fim, algumas fachadas de construções mais antigas.

O Guia combina informações sobre o passado da cidade com a situação atual dos lugares apresentados. Fala sobre o que já não existe mais (como a Ponte Giratória, a Igreja dos Martírios e a maior parte dos cinemas de rua) e sobre o que resiste (o Cais José Estelita, o Sebo da Avenida Guararapes, o Bairro dos Coelhos, o Bairro do Pilar, o Coque e o Teatro do Parque).

Também cita locais específicos (como a Rua da Glória e o Gabinete Português de Leitura) e das rotas na vida da cidade (como o próprio Rio Capibaribe, o trajeto do Farol da Barra e as linhas de ônibus que circulam na madrugada, chamadas de bacurau).

E não se trata de apenas mostrar cada escolha, pois os textos que acompanham as imagens são repletos de significados. Na parte do Rio Capibaribe, por exemplo, comenta-se sobre a relação da cidade com a natureza. O mesmo tipo de conexão se faz em relação ao patrimônio histórico, com o exemplo da demolição da Igreja dos Martírios.

Comenta-se ainda sobre o medo da violência na descrição do comportamento dos passageiros e pessoas que trabalham nas linhas bacurau. Pelas citações ao Movimento Ocupe Estelita e à ação dos moradores dos bairros dos Coelhos, do Pilar e do Coque, fala-se sobre a ocupação dos espaços urbanos – citando questões políticas, econômicas e sociais.

O comércio é um dos pontos lembrados no Guia, remetendo à lembrança da cidade-mascate. Assim como são mostradas a pesca urbana, antigos empreendimentos que passam por gerações de uma família ou um comércio mais recente, feito em grande parte por migrantes de países africanos e asiáticos.

O Guia conta, por exemplo, a história do padeiro que começou a criar os pães em formatos de bicho. Foca na pessoa do livreiro Melquisedec Pastor do Nascimento ao falar sobre a Praça do Sebo. Lembra de Quinha do Tamborete, que canta para vender as peças eu ela confecciona.

Assim como os sons, os realizadores do guia também lembram dos cheiros que constituem uma cidade, como o aroma de biscoito que é possível sentir perto da fábrica da Pilar. Pelas páginas do livro também são contemplados capítulos da vida cultural da cidade a partir do Bar Savoy, da Livro 7 e dos cinemas de rua.

Outros guias afetivos do Recife

Com o Guia Comum do Centro do Recife, os artistas acrescentam mais uma obra à lista de guias poéticos feitos sobre a capital pernambucana, na qual se insere, por exemplo, o famoso Guia Prático, Histórico e Sentimental da Cidade do Recife, escrito por Gilberto Freyre, obra na qual o sociólogo trata do cotidiano da cidade, assim como histórias nascidas entre suas ruas e pontes. O pernambucano também é autor de Assombrações do Recife Velho, obra focada em um aspecto marcante do imaginário ligado à capital pernambucana.

O texto é uma versão resumida do artigo Guia Comum do Centro do Recife: A Criação Artística e o Imaginário de uma Cidade, que apresentei no Intercom Nordeste 2016.

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