Spielberg e Dungeons & Dragons são referências para Stranger Things

A série Stranger Things, que estreia nesta sexta-feira (15/7) na Netflix, deve provocar uma sensação de nostalgia em muitas pessoas que viveram sua infância nos anos 1980. Os próprios criadores da nova produção, os irmãos Matt e Ross Duffer, afirmam que gostariam de ver na TV algo no estilo dos filmes com os quais eles cresceram, dirigidos por pessoas como Steven Spielberg e John Carpenter, ou dos romances de Stephen King. A presença de Winona Ryder no elenco, que começou a fazer sucesso no final daquela década com filmes como Beetlejuice (1988), colabora para esta impressão. Mas há várias outras referências presentes no roteiro, na cenografia e na trilha sonora da série, que teve os oito episódios da primeira temporada disponibilizados de uma vez.

A história de Stranger Things é ambientada em uma pequena cidade no interior dos Estados Unidos, Hawkins (Indiana). Em 1983, um menino de 12 anos, Will Byers (Noah Schnapp), desaparece e a comunidade local se envolve nas buscas. Com isto, eles acabam descobrindo algo que estava escondido sob a aparente calma da cidade.

Winona Ryder interpreta Joyce Byers, mãe de Will e Jonathan (Charlie Heaton). Ela cita como referências para a construção do personagem dela os trabalhos das atrizes Ellen Burstyn, em Alice Não Mora Mais Aqui (1974), dirigido por Martin Scorcese, e Marsha Mason, na comédia A Volta de Max Dugan (1983), de Herbert Ross, e no suspense As Duas Vidas de Audrey Rose (1977), de Robert Wise.

Mistério e coisas extraordinárias

Uma aura de mistério e a ideia de que coisas extraordinárias podem acontecer com pessoas comuns são duas características importantes na construção do roteiro de Stranger Things – e são pontos que atraíram muitas pessoas para as obras de Stephen King e Steven Spielberg.

“Éramos obcecados pelos livros e filmes deles, pois eram histórias que podiam acontecer com pessoas que conhecíamos. E aí você adiciona uns monstros, um toque sobrenatural, alguns alienígenas, e parece que é você que está vivendo tudo aquilo. Nós fomos influenciados por tantas coisas – filmes, videogames, livros… aí pegamos tudo isso e colocamos no liquidificador”, contou Ross Duffer na divulgação da série.

O irmão dele, Matt, complementou lembrando que a série acompanha três gerações (crianças, adolescentes e adultos).  “Nós gostamos de pensar em cada uma dessas gerações existindo em um universo distinto dos anos 1980. Os adultos estão em um filme de Spielberg – são indivíduos imperfeitos que demoram, mas inevitavelmente percebem que algo extraordinário está acontecendo ao seu redor. Os adolescentes estão em um filme de terror tipo Halloween – A Noite do Terror ou A Hora do Pesadelo, onde as dificuldades da vida na escola e a perda da inocência se misturam a um mal sobrenatural. E as crianças estão em um romance de Stephen King, tipo Conta Comigo ou It – Uma Obra Prima do Medo: são crianças nerds que se sentem excluídas, que moram em uma cidade pequena e precisam se unir para enfrentar algo aterrorizante”.

Will e os amigos Mike (Finn Wolfhard), Lucas (Caleb McLaughlin) e Dustin (Gaten Matarazzo) gostam de jogar Dungeons & Dragons (de 1974 a 1989, foram feitos seis lançamentos relacionados ao jogo). A produtora de objetos da série, Lynda Reiss, afirma que eles visitaram um grupo de jogadores e replicaram guias e desenhos de um homem que era criança nos anos 1980 – desenhos dele podem ser vistos no quarto de Mike. O RPG de fantasia medieval não está presente no roteiro apenas como um passatempo para os personagens, ou um referência estética, o espectador notará que ele tem algo relacionado ao desenvolvimento da história.

Além disso, quando Will desaparece, os amigos também participam das buscas por ele. Tais aventuras de um grupo de amigos foram o mote de muitos clássicos da Sessão da Tarde (Globo) para as crianças dos anos 1980-1990. O ator Finn Wolfhard, que interpreta Mike Wheeler, revela que é obcecado pelos filmes dos anos 1980 e foi justamente isso que o inspirou a fazer os testes para a série. “Uma carta de amor aos anos 80. É algo como Conta Comigo e Os Goonies – a química entre as crianças em Stranger Things é muito parecida”, afirmou.

Stranger Things teve cenas filmadas em estúdio e também em locações externas nos arredores de Atlanta (Geórgia) – como um prédio na Universidade de Emory, o centro de Jackson e uma escola em Stockbridge. Além de aproveitar os lugares reais como cenário, a equipe da série comprou alguns objetos dos moradores para usar nas gravações.

A cenógrafa Chris Trujillo ressalta que o visual era importante para que o público se identificasse, mas não poderia se transformar em uma distração. A ideia, segundo ela, era representar os anos 1980 de uma maneira que não fosse óbvia. Há referências sutis como latas de cerveja, walkie talkies e o acabamento em madeira dos carros.

Para o produtor executivo da série, Shawn Levy, “há algo Spielbergiano sobre Indiana. Hawkins é uma cidade com história – não apenas em sua localização e construções, mas principalmente em seus personagens”. Por falar em Steven Spielberg, na casa dos Byers, um dos cenários construídos em estúdio, o público pode identificar um pôster clássico do filme Tubarão (1975), dirigido por ele.

A trilha sonora de Stranger Things segue a mesma linha. Foram usadas músicas de Tangerine Dream, Vangelis e John Carpenter, Toto, Joy Division e Modern English. David Harbour, que interpreta Hopper, lembra de outro ponto, relacionado ao hábito de escutar música na época, usando fitas cassetes: “As coletâneas que gravávamos são uma forma de arte que se perdeu no tempo. São coisas assim que me dão tanta saudade dos anos 1980”.

O texto foi originalmente publicado no Jornal do Commercio.

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