The Get Down fala sobre música, sonhos, amor e amadurecimento

Myles Aronowitz/Netflix

A música atravessa a vida de todos os personagens da série The Get Down, que é dirigida por Baz Luhrmann e estreia na Netflix nesta sexta-feira (12/8). Morando no South Bronx, no final da década de 1970, eles viveram a época na qual a disco music chegava ao topo e surgia o hip-­hop. Mylene Cruz (Herizen Guardiola) sonhava em ter uma carreira de cantora por um caminho diferente do gospel e foge de casa na companhia de duas amigas para entregar uma fita demo na boate Disco Inferno. Ezekiel “Books” Figuero (Justice Smith) já demonstrava talento como compositor quando começou a mergulhar, junto com seus amigos, no universo deste outro tipo de arte que nascia na região.

Mas é melhor não esperar apenas pelo lado brilhante da festa, The Get Down anuncia (ao menos nos três capítulos iniciais) um passeio por algumas histórias que se desenvolvem enquanto o som embala os corpos na pista de dança: as relacionadas aos sonhos e frustrações de seus protagonistas, outras que envolvem violência nos bastidores da noite e também as que revelam certa melancolia dos desencontros amorosos do passado.

Assim, uma rede de relações se forma, conectando aquelas pessoas nos ambientes pelos quais elas transitam. É primordialmente com as experiências vividas pelos dois grupos de jovens, as amigas de Mylene e os amigos de Ezekiel, que se desenvolve a história. A trama começa em 1977, um ano muito marcante para Nova York na vida real – culturalmente, como já foi dito, e também por outros aspectos e acontecimentos.

Um deles foi um apagão que afetou grande parte da cidade nos dias 13 e 14 de julho de 1977 e foi sucedido por saques e incêndios. O episódio é lembrado na série, que resgata imagens originais da década de 1970 e faz menção a personagens reais misturados à ficção. Alguns deles participaram do projeto, como consultores ou envolvidos na produção.

A ficha técnica da nova obra original da Netflix tem nomes como o historiador do movimento hip-hop Nelson George, na função de supervisor de produção, Seth Zvi Rosenfeld, Kurtis Blow, DJ Kool Herc, Afrika Bambaataa, Rahiem of The Furious Five, Jose Xtravaganza, Willie Marine Boy Estrada e a dupla de grafiteiros CRASH and DAZE, entre outros, como consultores.

“A série é muito fiel ao nascimento da cena hip-hop: todos os grandes nomes que estavam lá são retratados na história junto com algumas figuras novas”, avalia o MC Nas, produtor executivo da série junto com Catherine Martin, na apresentação de The Get Down.

Em outra parte do material divulgado pela Netflix, Grandmaster Flash, que prestou consultoria e orientou o ator que o interpreta, Mamoudou Athie, afirma: “Nenhuma obra é perfeita do ponto de vista histórico, mas posso dizer que Baz e sua equipe chegaram muito, muito, muito perto. As roupas, os tênis, os passos das coreografias, as bebidas, as coisas que fumávamos, a representação do ambiente… chega a ser assombroso o que ele conseguiu fazer”.

Quem conhece Baz Luhrmann de filmes como O Grande Gatsby (2013), Moulin Rouge! (2001) e Romeu + Julieta (1996) já deve imaginar que a estética é marcante na série e esperar por elaboradas sequências de festas. Ao menos nos primeiros capítulos desta temporada há alguns exemplos disto, contornando os dramas, desejos e segredos dos personagens.

Quanto à elaboração do roteiro, Baz afirma que buscava “ato social, de conversar com personagens do mundo que está sendo retratado, de dar vida às lembranças e de colaborar com outras pessoas que gostam de contar histórias. Trata-se de um coletivo de lembranças e sensações relacionadas a uma época e um lugar, fazendo com que as experiências reais de pessoas e os relacionamentos desenvolvidos sejam o processo”.

Ainda na apresentação da série, Baz comenta o interesse dele sobre a relação entre “coisas tão profundas, criativas e inovadoras” com os jovens e a dinâmica urbana naquele contexto: “Era muita criatividade, mas com muito pouco recurso. Vemos várias representações de como o Bronx era destruído. Mas quem eram os ‘garotos’ daquela geração de artistas? Que grande aventura, senso de curiosidade e esperanças os adultos e os jornais não conseguiam captar? Em suma, esta série vai além das raízes do hip-hop ou do fim da era disco. O personagem principal aqui é a infância, o ‘verdadeiro impulso para a ação’, repleta de momentos felizes simples e descobertas acidentais que fizeram o hip-hop acontecer”.

Além dos seis primeiros episódios que a Netflix disponibiliza nesta sexta-feira (12/8), a RCA Records lança a trilha sonora original da série no mesmo dia. The Get Down já tem uma segunda temporada, com mais seis episódios, prevista para 2017.

 

AVISO DE SPOILER: Após o trailer, há detalhes sobre os três primeiros episódios de The Get Down.

 

 

Começo da história

O início da série The Get Down intercala imagens de um artista se apresentando no palco iluminado para uma plateia lotada, em 1996, com cenas diurnas de uma perseguição policial. Partindo dos contrastes, a obra começa a mostrar nuances, com os versos do rapper mostrando de onde ele veio junto com as imagens.

Em seguida, após uma rápida visão aérea de Nova York, o público é conduzido ao apartamento 16 G de um prédio no Bronx. Ezekiel está em casa, em 1977, compondo na cozinha. O pequeno espaço onde ele dorme é separado dos outros ambientes por uma cortina.

“Onde há ruínas, há esperança de um tesouro”, diz o grafite no trem que atravessa o bairro no início do primeiro episódio. Vale prestar atenção a esses detalhes não apenas como referências estéticas da época, mas como guias da narrativa. Os filmes de Baz Luhrmann são também lembradas pelo seu visual e esse aspecto segue presente na série The Get Down.

As cenas de canto e festa recebem destaque, com muitas luzes e cores fazendo da pista de dança um lugar vívido, mas esses elementos também aparecem nos momentos mais dramáticos da história.

Mesmo com o uso de imagens reais, e a pesquisa sobre a época, há escolhas menos realistas como as feitas para as aparições do personagem Shaolin Fantástico (Shameik Moore), que fazem referência a filmes de kung fu – para quem prefere algo mais documental sobre o fim da década de 1970, há opções como o documentário NY77: The Coollest Year in Hell.

De volta à narrativa no pequeno apartamento, a força do olhar do ator Justice Smith impressiona, transmite a sensação de que há algo pedindo para ser expressado naquele jovem aparentemente quieto, introvertido. É possível que o próprio Ezekiel não saiba muito bem como dar vazão a isso, pois, ao ter uma poesia reconhecida pela professora, prefere não ler os versos na sala de aula (e a reação de parte da turma não colabora muito…).

Fato é que ele precisa encontrar seu próprio caminho, assim como Mylene. A primeira cena dos dois juntos ocorre na igreja da qual o pai dela é pastor. A jovem canta durante os cultos e Ezekiel acompanha ao piano. Ao contrário dele, Mylene já tem um plano traçado para seu futuro: Quer ser cantora disco e avisa que não vai deixar ninguém atrapalhá-la. Para realizar seu sonho, ela enfrenta a resistência do pai, Ramon Cruz (Giancarlo Esposito).

Uma noite, Mylene sai escondida de casa com as amigas para o clube Disco Inferno, onde pretende entregar uma fita demo. Ezekiel também vai até lá, tentar encontrá-la. Com fila na porta, a boate não será palco apenas para cenas de dança, pois a dona do estabelecimento, Fat Annie (Lillias White), controla metade do comércio de cocaína no Bronx – mais uma discoteca, três casas noturnas, prostituição, jogo e uma creche, como ela faz questão de ressaltar. Os caminhos de Mylene e Ezekiel confluem para a Disco Inferno no mesmo dia em que Fat Annie comemora seu aniversário, o que atrai alguns rivais.

The Get Down Netflix
DJ Shaolin Fantástico apresenta o get down aos personagens na série. Foto: Netflix

Já no primeiro episódio, Ezekiel e seus amigos conhecem o DJ Shaolin Fantástico (Shameik Moore), que os apresenta ao get down e se transforma em uma espécie de guia para aqueles garotos. Sempre de tênis vermelho, ágil, havia uma certa mística em torno dele na região. Mylene também terá alguém para ajudá-la, o tio e vereador Francisco “Papa Fuerte” Cruz (Jimmy Smits), que entra em contato com o produtor Jackie (Kevin Corrigan).

Com Shaolin trabalhando para Fat Annie e Jackie passando por um momento de baixa na carreira, é possível prever alguns percalços nos caminhos dos dois. O início da série The Get Down contextualiza a vida dos personagens que fazem parte dos eixos representados por Ezekiel e Mylene, se aprofundando aos poucos.

Após algum tempo, por exemplo, é revelada uma nuance da relação de Francisco Cruz com o irmão, Ramon, e a cunhada, Mrs. Cruz (Zabryna Guevara), assim como desses com a filha adolescente. Nos três capítulos iniciais, desenha-se um rico panorama de relações sociais, eferverscência cultural e elementos referentes ao crescimento de um grupo de jovens, disponível para ser explorado nos episódios seguintes.

 

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