Velho Chico termina com metáfora sobre a vida como uma navegação

Foto: Renan Castelo Branco/Globo

Imagens do ator Domingos Montagner, interpretando o personagem Santo dos Anjos a navegar pelo Rio São Francisco em um barco à vela, foram resgatadas no último capítulo da novela Velho Chico (Globo), exibido nesta sexta-feira (30/9), e se transformaram em uma despedida/homenagem ao artista, que faleceu naquelas águas pouco antes do final das gravações do folhetim. A trilha sonora da sequência era a música Francisco, Francisco, interpretada pela cantora Maria Bethânia. O conjunto formava uma metáfora sobre a vida, na qual os indivíduos fluem pelo curso das águas até se misturarem no encontro com o mar. Este foi um dos momentos carregados de simbologias que foram apresentados ao público durante a noite.

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Domingos Montagner como Santo, personagem de Velho Chico. Foto: Globo

Outro deles foi o próprio casamento de Santo e Maria Tereza (Camila Pitanga). O mesmo recurso que vinha sendo utilizado nos episódios anteriores para manter o personagem presente na história, a combinação da câmera subjetiva com gravações da voz de Domingos Montagner, foi mais uma vez aplicado nesta ocasião. Chico Criatura (Gésio Amadeu), Luzia (Lucy Alves), Bento (Irandhir Santos) e Maria Tereza falaram olhando diretamente para a câmera. Claro que há uma tristeza pela ausência do ator, e um certo estranhamento pelo fato de a câmera subjetiva não ser tão comum neste tipo de cena, mas a escolha criativa foi bem executada pela equipe. Além disso, dada a importância do personagem, e a qualidade do trabalho desenvolvido por Domingos Montagner na criação do mesmo, foi um modo de honrá-lo.

No figurino, havia mais um detalhe. A noiva usava um colar de penas, referência aos índios que salvaram Santo da morte após a tentativa de assassinato empreendida por Carlos Eduardo (Marcelo Serrado) – as cenas do encontro de Santo e Maria Tereza na tribo também foram resgatadas no último episódio da novela.

Após uma mensagem sobre o amor feita pelo padre Benício (Carlos Vereza), choveu dentro da igreja, sem que para isso fossem necessárias maiores explicações. Ao menos parte do público deve ter se lembrado de uma sequência exibida ainda na primeira fase da novela, quando o padre Romão (Umberto Magnani) confortava Santo (ainda interpretado por Renato Góes) após a morte do pai.

“Filho, quando um espírito de luz morre, antes de subir aos céus, ele não vira estrela como todos os outros. Ele vira chuva, podendo derramar sobre nós aquilo que ele tem de melhor”, disse o religioso na época. Ali Santo banhou-se na chuva e deu seguimento ao trabalho iniciado por Belmiro (Chico Diaz) junto aos agricultores da região.

A ideia de continuidade da vida também foi trabalhada no roteiro com a escolha de fazer o nascimento dos filhos de Miguel (Gabriel Leone) e Olívia (Giullia Buscacio) ocorrer no mesmo momento em que era celebrada a união dos pais deles. Os jovens contaram com o conhecimento de Ceci (Luci Pereira) no parto dos gêmeos, que foram chamados de Belmiro e Rosa, em homenagem ao avós Belmiro e Ernesto Rosa (Rodrigo Lombardi). Um novo ciclo se iniciava.

Mais adiante, caberia a Miguel  retomar a trajetória destes personagens, além das de Eulália (Fabiula Nascimento) e Martim (Lee Taylor), em uma cena na qual ele aparecia sendo entrevistado sobre a transformação provocada em Grotas de São Francisco com a implantação do projeto de cultivo de alimentos orgânicos e reflorestamento. E aqui, mais um detalhe simbólico: ele usava um lenço vermelho, como faziam Santo e Belmiro. Enquanto o jovem conversava com a repórter, diversos personagens compartilhavam uma refeição em uma grande mesa, incluindo Afrânio (Antônio Fagundes) – acho que uma confraternização com os cooperados seria mais apropriada pelo que a história da novela parecia propor do que uma refeição de família, por mais que o coronel Afrânio tenha corrigido algumas falhas no final da trama, ele estava deslocado ali, e a vegetação em volta não lembrava a região da fazenda.

O último coronel Saruê abandonou o título que o transformou ao longo da novela, representado imageticamente pelo figurino e a peruca que lhe conferiam um ar caricato, de pompa meio torta. Na reta final da história, o personagem tentou retomar a vida de onde ele parou, como chegou a dizer ao neto Miguel em uma rápida conversa. Foi Afrânio quem denunciou o esquema de corrupção do qual participara, entregando documentos para o processo. Ele também iniciou uma reaproximação com Maria Tereza e teve uma visão do filho Martim. Nem tudo era possível retomar, afinal. As decisões que ele tomou ao longo da vida causaram muito sofrimento aos que estavam em volta dele.

Já o cúmplice de Afrânio não seguiu pelo mesmo caminho de redenção, foi o vilão do folhetins a quem é destinado o fim trágico. Logo no começo do episódio, Carlos Eduardo (Marcelo Serrado), após tomar conhecimento da denúncia feita por Afrânio, tentou fugir de Ciço (Marcos Palmeira) e Bento (Irandhir Santos), carregando consigo malas com parte do dinheiro que havia desviado. Mais tarde, o ex-deputado que ambicionava ser o novo coronel Saruê morreria clamando por água no meio da caatinga.

Antes disso, a Polícia Federal prendeu o delegado e o prefeito de Grotas de São Francisco, a tempo de evitar que este último conseguisse queimar todos os documentos que comprovavam a ligação dele com os crimes cometidos ali. Do lado de fora do prédio público, um símbolo da renovação: a Beatriz (Dira Paes), nova prefeita da cidade – mulher, indígena e professora, orgulhosa das características que o corrupto Carlos Eduardo tentava desmerecer durante a campanha. A combativa Beatriz também terminou a novela esperando um filho de Bento.

Outros personagens também ajustaram suas rotas nos momentos finais de Velho Chico. Ciço finalmente soltou as amarras que o prendiam aos “de Sá Ribeiro” e se lançou na estrada com Dalva (Marienne de Castro), dirigindo o caminhão que se transformava em palco para a “Luminosa Dalva” se apresentar pelas estradas (e a voz de Marienne faz com que se pense que este momento poderia ter acontecido antes).

Luzia foi outra que colocou o pé na estrada para refazer seus caminhos. Não foi tão longe quanto Ciço e Dalva, mas deixou a Fazenda Piatã para morar sozinha. Um dia, quando trabalhava na roça com outros agricultores, escutou o choro de um bebê. Ao adotar a criança, a personagem retomou o gesto que Eulália e Ernesto Rosa fizeram a ela, outro recomeço simbólico da trama.

História de Velho Chico

O enredo da novela Velho Chico, escrito por Benedito Ruy Barbosa e Bruno Luperi, se desdobrou a partir de um pequeno (mas significativo) núcleo formado por três famílias, permitindo uma reflexão sobre o que faz com a própria vida e o que se deixa para as próximas gerações. De um lado, estavam os “de Sá Ribeiro”, ricos fazendeiros na região da fictícia Grotas de São Francisco. A matriarca Dona Encarnação (Selma Egrei) passou boa parte da novela se referindo ao legado que esse nome carregava. Mas foram justamente coisas atrelados a ele, o poder e o dinheiro, que estavam relacionados aos acontecimentos que acabaram desintegrando a família. Poucos conseguiram estabelecer relações de afeto duradouras.

Na fazenda Piatã, os laços entre os personagens não eram apenas de parentesco, mas também pautados pela amizade e solidariedade. Além de adotar Luzia (Lucy Alves), o capitão Ernesto Rosa (Rodrigo Lombardi) e Eulália (Fabiula Nascimento) acolheram Belmiro (Chico Diaz), Piedade (Zezita Matos) e Santo dos Anjos, quando estes deixaram suas terras por causa da seca. Mais tarde, nasceria Bento. Belmiro debelou um incêndio criminoso na fazenda Piatã e se tornou o braço direito de Ernesto.

Opondo-se ao coronelismo existente naquela região, os Rosa e os dos Anjos continuaram sendo perseguidos ao longo da trama. Ernesto foi assassinado em plena feira de Grotas e Belmiro acabou morrendo em uma emboscada, que havia sido armada para Santo. Na transição para a segunda fase da novela, coube a Piedade o papel de matriarca do núcleo de personagens e a Santo o de liderar a missão iniciada por Ernesto e Belmiro junto aos agricultores da região, tornando-se presidente de uma cooperativa.

As pontes entre os dois polos da história eram personagens como o dono do bar da cidade, Chico Criatura (Gésio Amadeu), e os padres Romão (Umberto Magnani) e Benício (Carlos Vereza).

As conversas entre os personagens renderam momentos emocionantes, tocando em questões como as relações familiares e o respeito à terra e ao rio. Por outro lado, também abriam espaços para críticas à ganância, aos preconceitos, às redes de corrupção.  A novela tinha diálogos longos sobre temas densos, o que pode incomodar alguns, mas é justamente do que outros telespectadores sentem falta na TV aberta (aqui não me refiro àquela “esticada” na trama pelas quais as obras passam às vezes, falo sobre a presença de mais cenas dedicadas às conversas).

Longas também eram as cenas em que se podia observar a beleza das regiões onde foram filmadas cenas da novela. Velho Chico fazia um convite à contemplação. O cuidado com a fotografia e a direção de arte, algo característico do trabalho de Luiz Fernando Carvalho (diretor artístico da novela), ganhou elogios logo no episódio de estreia e foi mantido até o final. A trilha sonora também chamou a atenção logo no início do folhetim.

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