3ep: Easy cria um mosaico sobre relacionamentos contemporâneos

Foto (corte da imagem): Scott Garfield/Netflix

Pelo que consta no texto de apresentação disponibilizado para o público, a série Easy (Netflix) acompanha “momentos de diferentes personagens de Chicago conforme eles tateiam pelos labirintos do amor, sexo, cultura e tecnologia”. A produção de Joe Swanberg estreou com certa discrição na plataforma, mas pode se revelar uma opção interessante para os que buscam histórias que suscitem, com um pouco de humor, reflexões sobre temas contemporâneos. A primeira temporada da antologia, formada por episódios curtos, oferece ao espectador doses de cada um desses elementos.

As histórias focam em passagens curtas das vidas dos personagens e, às vezes, não possuem um final muito definido. Alguns personagens aparecem mais de uma vez e uma das histórias tem um desdobramento, mas os episódios realmente podem ser assistidos de maneira independente. Recorrendo a um termo comum para quem utiliza redes sociais, o que combina com a temática de Easy, acompanhar às histórias da série é uma experiência parecida com a de “stalkear” o perfil de alguém. Você pode descobrir algo relevante sobre a pessoa, saber com quem ela se relaciona, conhecer alguns de seus interesses, mas estará tendo contato apenas com uma fração do que é a vida dela.

Pela brevidade do contato do espectador com os personagens pode parecer que ele ocorrerá de uma maneira superficial, mas não é bem assim. Em Easy, algo bastante significativo pode ser extraído a partir de um olhar, como o que é lançado pela personagem Kyle (Michael Chernus) enquanto o marido deixa o quarto do casal, em uma das últimas cenas do primeiro episódio. Ou desdobrado a partir dos diálogos da atriz Annabelle Jones (Jane Adams) no episódio Artigo de química – aproveitando o fato de “Belle” ter sido citada aqui, cabe dizer que, mesmo sendo uma das que aparece mais de uma vez ao longo da temporada, a personagem tem nuances que despertam a vontade de vê-la em um episódio “próprio” em uma próxima oportunidade.

Um dos atrativos da série Easy, aliás, está nos diálogos. Eles são ágeis, construídos com uma linguagem cotidiana que torna uma conversa entre amigos sobre os resultados de uma pesquisa que algum deles leu, por exemplo,  algo próximo do que ocorreria num debate desse tipo entre pessoas reais.

Aviso de spoiler: Abaixo do trailer há comentários sobre três episódios da série.

3 ep.

easy_netflixjsp_101_unit_0139_r
Andi (Elizabeth Reaser) e Kyle (Michael Chernus). Foto: Zac Hahn/Netflix

Episódio 1 – A p**ra do estudo

É o episódio que começa com a tal conversa entre amigos sobre os resultados de uma pesquisa. Todos estão em uma festa e começam a se aproximar do centro da sala, coincidentemente, no momento em que Kyle (Michael Chernus) escutava o amigo explicar que concordava com o que era afirmado no estudo lido por ele -“Casais que mantêm papéis de gênero mais normativos transam mais”. A partir daí, surgem questionamentos como sobre o que seria considerado normativo ou ponderações de que este tipo de questão não seria algo mensurável, etc.

A validade do estudo foi contestada na festa, mas a situação acabou motivando uma conversa entre Kyle e Andi (Elizabeth Reaser) na saída do evento. Ele cuida da casa e dos filhos ao longo da semana, enquanto escreve uma peça de teatro. Andi tem horários mais definidos, pois trabalha em uma empresa. Juntos há cerca de 15 anos, os dois sentem que a vida sexual deles mudou e tentam fazer alguns ajustes.

Mas, com o passar do episódio, o espectador é convidado a ver que essa mudança sentida por eles não é explicada pelo fato de Kyle cuidar das crianças e Andi trabalhar fora, como o amigo deles parecia insinuar. As dúvidas e a disposição dos personagens ficam claras, mas as soluções para os dilemas deles, se é que existem, não são extraídas de fórmulas prontas. Por não apresentar histórias mais “redondas”, com um desfecho para os conflitos apresentados, Easy se aproxima de uma explanação sobre a vida como sendo algo que não cabe nas categorias de uma pesquisa.

easy_netflixjsp_104_unit_0041_r
Anabelle Jones (Jane Adams) e Jacob Malco (Marc Maron). Foto: Zac Hahn/Netflix

Episódio 5 – Vida e Arte

O episódio começa com o ilustrador Jacob Malco (Marc Maron), que lançou três graphic novels com histórias inspiradas em sua vida pessoal, sendo entrevistado no estúdio de uma rádio. Após comentar sobre as obras Conjugalidade e Infidelidade, a repórter pergunta se ele ainda conversa com a primeira esposa e como as mulheres envolvidas na obra reagem ao fato de serem representadas por ele. Com as respostas de Jacob, o espectador conhece um pouco do lado dele nessa história, mas, depois, terá acesso a novas nuances.

Mais adiante, Jacob conhece um grupo de jovens artistas em um evento literário. Eles vão para um bar e, quando esse fecha, seguem para a casa do ilustrador. Entre o grupo de artistas está Alexandra (Alexandra Marzella), que também desenvolve um trabalho a partir de imagens de sua vida pessoal, mas utiliza para isso a câmera de um celular e um pau de selfie.

Ironias da vida: Jacob só descobre ao chegar na galeria que aparece em uma das fotos expostas por Alexandra e não gosta nada de passar por isso. O encontro dos dois, e a reação das outras pessoas ao fato ocorrido durante o vernissage, permite uma série de reflexões não só sobre a representação do outro no campo da arte, mas também sobre como nos colocamos nestes tempos de redes sociais, selfies e vlogs.

easy_netflixjsp_105_unit_0050_r
Tom (Orlando Bloom) e Lucy (Malin Akerman). Foto: Patrick Wymore/Netflix

Episódio 6 – Utopia

Tom (Orlando Bloom) e Lucy (Malin Akerman) estão casados há um certo tempo, têm um filho pequeno, e descobrem “as maravilhas do Tinder”, como descrito na sinopse, em conversas que ocorrem separadamente com uma aluna da academia e com uma cantora. Um tempo depois, quando se encontram e comentam sobre o assunto, ambos cogitam a possibilidade de criar um perfil conjunto para procurar uma mulher interessada em fazer um ménage.

Curiosamente, dias após assistir ao episódio, notei uma certa semelhança entre o que ocorre no começo da história e uma conversa real. Na ocasião, um dos solteiros explicava o funcionamento de aplicativos como o Tinder para algumas pessoas e comentava sobre certos códigos de comportamento que acabam surgindo nesse ambiente. O que havia em comum com a ficção é que algumas delas brincavam falando algo parecido com o que é dito por Tom e Lucy na série: “Na minha época de solteiro não tinha isso”. Um indício de que Easy consegue levar para a tela conversas que estão presentes na vida das pessoas atualmente.

De volta para a ficção, Lucy e Tom ultrapassam o nível de mera curiosidade sobre as experiências dos outros e criam mesmo o perfil no tal aplicativo. O casal fica um tempo tentando se fotografar de acordo com a imagem que gostaria de passar e também observando os perfis dos outros usuários. Os dois acabam marcando um encontro com alguém. Mas, de novo, ter um desfecho “certinho” para a história não é o mais importante, a equipe de Easy está mais interessada no que se revela durante o processo, na dinâmica entre os personagens, filmada de maneira bem direta e despojada.

Um comentário sobre “3ep: Easy cria um mosaico sobre relacionamentos contemporâneos

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s