Eu, Daniel Blake impactou o público no Janela Internacional de Cinema

Desobediência é um tema que permeia o festival Janela Internacional de Cinema do Recife em 2016. Ele foi escolhido para a Mostra de Clássicos, mas também aparece, por exemplo, nos filmes selecionados para as primeiras sessões do evento, realizadas sexta-feira (28/10), no Cinema São Luiz*. O público do festival, que já deixou aquela sala de exibição em clima de festa em outras edições, dessa vez esvaziou as poltronas de modo mais silencioso, o que não se traduz em indiferença.  Era possível notar em muitos rostos o impacto deixado pelo longa-metragem Eu, Daniel Blake, do britânico Ken Loach.

A história do filme se desenvolve a partir do encontro de pessoas que, por coincidência, tentavam ser atendidas em uma repartição pública no mesmo momento. Uma delas é Daniel Blake (Dave Johns). Ele iniciou um processo para receber um auxílio financeiro enquanto se recupera de um ataque cardíaco. Ao avaliar os resultados dos exames, a médica conclui que ele ainda não pode voltar a trabalhar como marceneiro, mas Daniel precisa pagar suas contas e fica preso em um labirinto povoado por questionários a serem preenchidos, longas esperas ao telefone e funcionários que (em sua maioria) permanecem distantes daqueles a quem estão atendendo.

Não tenho propriedade para comparar o mercado de trabalho no Reino Unido com o Brasil. Mas fiquei pensando que por aqui, a reinserção do personagem de 59 anos, mesmo com a saúde recuperada, poderia encontrar como obstáculo o fato de que muitos contratantes enxergam os anos de experiência de um candidato nessa faixa etária como “um gasto”, o que dificulta a contratação.

Enquanto aguarda (mais uma vez) para ser atendido, Daniel vê Katie (Hayley Squires) em outro guichê acompanhada pelos filhos. Com duas crianças para cuidar sozinha, e desejando concluir seus estudos para conseguir um emprego, a personagem também passa por dificuldades financeiras. Até chegar ao local onde conheceu Daniel, ela precisou decidir entre morar em um abrigo para sem-tetos com as crianças ou deslocar-se para a cidade que fica a cerca de 500 quilômetros de Londres.

A história é ambientada na Grã-Bretanha, mas também poderia se passar no Brasil ou em outros países. Os atores estão bem em seus papéis, com um equilíbrio na atuação que faz com que o afeto que existe entre os personagens transpareça e comova a plateia pelos detalhes dos gestos e diálogos cotidianos. Mesmo os que aparecem menos do que o núcleo principal, como os vizinhos de Daniel, a funcionária pública Ann e um homem que ele encontra perto da repartição, exalam personalidade.

O Delírio é a Redenção dos Aflitos

O longa-metragem de Ken Loach, que venceu a Palma de Ouro no Festival de Cannes em 2016, dialogou bem com o curta-metragem do pernambucano Fellipe Fernandes, que o antecedeu no Janela de Cinema, e também tinha sido exibido no evento francês (como parte da Semana de Crítica).

O Delírio é a Redenção dos Aflitos acompanha um momento-chave da vida de Raquel (Nash Laila). Ela mora com o marido e a filha em um prédio-caixão em Olinda, no bairro de Jardim Atlântico. A família é a última a permanecer no edifício, que ameaça desabar (situação vivida em tempos recentes por muitas famílias na Região Metropolitana do Recife).

Conheço Fellipe e morei por um curto período num prédio-caixão em Olinda que, anos mais tarde, também seria desocupado, então tive uma conexão pessoal com o filme (ao dizer isso não comparo a minha experiência com a de quem realmente teve que deixar sua casa, claro, é que lembrei dessas histórias na ocasião). Mas senti que outras pessoas da plateia também foram tocadas pela leitura sobre as relações humanas e sobre o espaço habitado suscitada pela história do curta.

delirio
Raquel (Nash Laila) em cena de O Delírio é a Redenção dos Aflitos.

Raquel trabalha em uma loja de departamentos no centro do Recife, o Atacadão dos Presentes (que é bem conhecido pelos moradores da cidade e fica perto do Cinema São Luiz). Objetos de decoração estão entre os diversos produtos disponíveis nas prateleiras do local, que costuma receber muita gente. Raquel aparece cercada por enfeites de Natal, coloridos e luminosos, no momento em que precisa de um lugar para morar.

Parte do público presente na sessão do Janela de Cinema pode ter passado pelo mesmo local onde ela parou para comer com as amigas. Nesta cena, enquanto responde a perguntas feitas por elas ou recebe conselhos práticos, como o de organizar financeiramente pois a construtora pode demorar a pagar o aluguel, Raquel parece um tanto perdida. O olhar de Nash Laila vagueia, como se estivesse em busca de um lugar que não é apenas físico. É perceptível um ar de solidão na personagem. E, junto com a construção dela, uma das coisas mais interessantes do filme é como, em pouco tempo, o diretor consegue trabalhar a ideia do lar por um ângulo mais amplo, não apenas relativo ao espaço construído, mas pelo símbolo do acolhimento.

* Não consegui chegar a tempo para assistir aos filmes Eles Não Usam Black Tie, de Leon Hirszman, e Roteiro Sentimental do Primeiro Cineasta, feito por Lucio Vilar com imagens do cineasta Walfredo Rodriguez.

** Animal Político tem outra exibição programada para a sexta-feira (4/11), às 17h, em uma sessão com debate no Cinema do Museu. No mesmo dia e horário, será reapresentado Roteiro Sentimental do Primeiro Cineasta. A programação atualizada está disponível no site do Janela Internacional de Cinema.

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