Westworld: Considerações a partir do filme que inspira a série da HBO

Foto: MGM

Ao criar a série Westworld, que a HBO exibe aos domingos, Jonathan Nolan e Lisa Joy buscaram inspiração no filme Westworld – Onde Ninguém Tem Alma (1973), escrito e dirigido por Michael Crichton*. No longa-metragem, dois homens chegam ao parque de diversões Delos, um complexo turístico formado por três ambientes criados de acordo com os temas Roma Antiga, Idade Média e o Velho Oeste dos Estados Unidos.

Esses lugares são apresentados em um vídeo fictício relacionados a palavras como “decadência”, “sensualidade”, “romance” e “violência”. É com esse material promocional que o filme começa, mostrando as entrevistas feitas pelo repórter Ed Ramsey na estação onde um grupo de turistas desembarca. Os viajantes que contam suas impressões a ele acabam de voltar do parque transportados em um “aerobarco” (na série, a nave é substituída por um metrô).

“É como sempre dizemos. Delos são as férias do futuro, hoje”, ressalta Ed, enquanto é esclarecido para os possíveis interessados em fazer a mesma viagem que os robôs criados para desempenhar os diversos papéis nos parques foram programados para falar, andar e “até sangrar” como se fossem seres humanos.

Os realizadores da série decidiram focar no parque batizado como Westworld e esta é apenas uma das diferenças marcantes que existem entra as duas obras – ao citar as diferenças e semelhanças neste texto, o objetivo não é comparar as duas produções em termos quantitativos ou qualitativos, mas apenas comentar características de ambas, considerando que um mesmo mote pode ser trabalhado de maneiras distintas, relacionadas ao olhar de cada realizador, aos recursos disponíveis e os debates que surgem em cada época.

Exemplo disso é a escolha de um ponto de vista a partir do qual a narrativa será conduzida. No caso do filme, o espectador é guiado pelas impressões dos turistas interpretados por Richard Benjamin e James Brolin. O antagonista da dupla é um robô silencioso, interpretado por Yul Brynner, e o roteiro não se afasta muito do eixo formado pela interação dos três.

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Foto: MGM

Westworld na HBO

Já a série, até pela questão de tempo disponível, abre mais espaço para as experiências dos andróides e também para a das pessoas que trabalham no parque (o primeiro capítulo, especialmente, não se aprofundou tanto na perspectiva dos visitantes). Sendo assim, a produção da HBO introduz personagens como Dr. Ford (Anthony Hopkins), Theresa Cullen (Sidse Babett Knudsen), Bernard (Jeffrey Wright), Lee Sizemore (Simont Quarterman), Elsie (Shannon Woodward) e Stubbs (Luke Hemsworth) – além de uma figura como Arnold, que não aparece fisicamente em cena, mas está sempre presente. Com isso, multiplica as possibilidades de pequenas histórias a serem contadas.

O parque da série, construído em um lugar de beleza estonteante, ressaltada pela fotografia, também tem sua dupla de turistas, formada por William (Jimmi Simpson) e Logan (Ben Barnes). Mas eles têm personalidades mais conflitantes que as dos interpretados por Richar e James e, além disso, possuem uma relação com Westworld que deve ser esclarecida aos poucos. Ainda sobre personagens, alguns cogitam que a figura do robô interpretado por Yul Brynner tenha uma certa correspondência com a do Homem de Preto (Ed Harris), mas as semelhanças parecem se dar mais pelo modo obstinado de agir em sua missão do que pelas características dos personagens (o segundo é bem mais complexo).

Se, no longa-metragem de 1973, os robôs eram diferenciados dos humanos pelas mãos, que ainda não eram tão bem acabadas quanto o resto do corpo, na série é muito mais difícil diferenciá-los. Uma personagem da produção da HBO chega a questionar William sobre o assunto: Se ele não consegue distinguir se ela é humana, isto teria importância ali? Para o espectador, o estado de confusão aumenta quando anfitriões são deslocados para desempenhar outros papéis nas narrativas.

Ainda sobre a caracterização dos andróides, há uma diferença interessante. No filme, diversas cenas ressaltam o que há de mecânico neles, com fio expostos e os cientistas falando sobre peças. O estranhamento em relação àquelas criações é explorado também, agora pelo lado do horror, nas sequências em que o robô de olhos brilhantes caminha implacável pelo parque esvaziado. Na série, provavelmente devido ao avanço tecnológico, o foco muda para o que há de “quase humano” nos andróides. Há mais diálogos sobre o que eles podem ou não sentir, se seriam capazes de recordar, se poderiam usar informações para tomar decisões fora do script, etc. É da próxima fronteira que estamos falando.

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