Hilton Lacerda alinhava histórias na série Fim do Mundo

Foto: Canal Brasil

Foi aqui, no Porto da Suçuarana, que o presente virou sina. Foi aqui, quando o mundo começou a acabar, que as manifestações saíram do eixo. Foi aqui que, em vez de mudar, foi decidida a reconstrução a partir do nada. É… Foi aqui, no Porto da Suçuarana.

Mas só mais tarde nos demos conta, mesmo com o tempo trabalhando contra: O presente foi nosso castigo, nossa liberdade. O destino com uma imensa mania de grandeza*.

A sequência inicial de Fim do Mundo, série de Hilton Lacerda, mostra seis pessoas no terreiro de uma casa. Três delas à frente, sentadas, em uma composição que lembra as que ficaram plasmadas em fotografias antigas. A identidade de um jovem passa um tempo velada, até que ele se move e seu rosto sai da sombra de uma árvore. É noite e parece que aquelas pessoas estão à espera de algo que pode emergir a qualquer momento da escuridão, talvez algo vindo desse mesmo passado que ainda se faz presente nas relações sociais. A nova obra do diretor de filmes como Tatuagem (2013) estreia hoje no Canal Brasil, às 22h** (horário de Brasília), mas o primeiro episódio já pode ser assistido pela internet  (atualização: os episódios seguintes também já estão disponíveis).

As relações familiares aparecem com força em Mentira de Amor, título dado ao primeiro episódio, que é livremente baseado num conto do cearense radicado no Recife Ronaldo Correia de Brito (textos de autores diferentes foram escolhidos para cada capítulo, mais detalhes abaixo). O jovem cuja identidade é revelada aos poucos na sequência citada anteriormente é Cristiano (Jesuíta Barbosa). Nas cenas posteriores, ele chega à fictícia cidade de Desterro na companhia da mãe, Vitória (Hermila Guedes).

Enquanto o carro deles segue pela estrada que corta uma paisagem do interior nordestino, os passageiros trocam poucas palavras. Fica claro que mãe e filho estão tensos com aquela ida para a terra natal da personagem. Retornar a Desterro é, para Vitória, como voltar a um inferno de onde ela brigou muito para sair (palavras da própria). “É difícil sair e é difícil voltar”, desabafa ela para o filho em algum ponto do percurso.

A dupla é recepcionada na porta de casa por Balbino (Alberto Pires), Joaninha (Larissa Leão) e Mazé (Marcélia Cartaxo). O irmão de Vitória já demonstra muito de sua personalidade no tom que emprega nas primeiras frases ditas para a irmã e o sobrinho após o reencontro. “Ah, já voltou?”, ironiza ele, antes de comentar algo sobre “esse problema aí, referindo-se a Cristiano. Joaninha, com quem Balbino é casado, e a mãe dela, Mazé, permanecem quase o tempo todo caladas.

Mas, por motivos que não são logo esclarecidos para o espectador, Vitória e Cristiano precisam ficar por ali mesmo. Descobre-se que ele passou um tempo preso, mas não se sabe muito bem o porquê. O fato é que essa estadia logo começa a configurar uma viagem de descobertas, ou redescobertas, sobre o passado daquela família.

O primeiro passo em direção a isso ocorre quando Cristiano conhece Pedro (Artur Maia) por acaso, quando ambos usavam os computadores de uma lan house, e esse lhe apresenta a Liana (Hermínia Mendes). Os três entram em uma casa, hoje abandonada, que pertenceu a familiares de Cristiano e os novos amigos contam a ele o que os moradores da cidade sabem sobre os trágicos acontecimentos ligados àquele lugar.

O vazio daquela construção e das ruas, que na realidade compõem a cidade de Triunfo, no Sertão pernambucano, é bem explorado pelos diretores Hilton Lacerda e Lírio Ferreira. A escolha das locações e a predominância de cenas noturnas ressaltam a sensação de mistério e silenciamento que são tão importantes na narrativa que se apresenta.

A direção de fotografia de Breno César explora a escuridão e as luzes em cores quentes ou frias para criar os “espaços” do presente, da memória e do fantástico. Exemplos disso são as cenas que envolvem a família formada por Juvêncio (Bruno Goya), Delmira (Andréa Veruska) e as duas filhas do casal, Arminda (Clarice Valença) e Lucinda (Malu Germani).

O azul claro, de um tom pálido, com a luz filtrada pelas janelas lacradas por Juvêncio, é usado em uma cena na qual Delmira tenta descrever as figuras da trapezista e dos palhaços para as meninas, enquanto são ouvidos os sons do circo que chegou à cidade. O olhar cabisbaixo das três mulheres é bastante significativo. Sem querer entregar muito da trama, direi que os tons mudam para um azul intenso em contraste com o vermelho à medida em que a história delas é revelada ao espectador.

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Vitória (Hermila Guedes) e Cristiano (Jesuíta Barbosa) em cena da série Fim do Mundo, de Hilton Lacerda. Foto: Canal Brasil

Contos

Apesar de ter uma trama principal percorrendo toda a série, cada capítulo de Fim do Mundo tem como referência um conto diferente. Ronaldo Correia de Brito foi o responsável também pela escolha de mais três obras: Mateus, de Hermilo Borba Filho, O Dia em que Céu Casou, de José Carlos Viana, e Castilho Hernandez, o Cantor e Sua Solidão, de Sidney Rocha. Completa a lista um texto de Hilton Lacerda, que acabou compartilhando seu título com a série, inicialmente chamada de Conto que Vejo.

* Tentei reproduzir o texto interpretado na sequência inicial.
** Os episódios também são exibidos na terça-feira, à 0h15, e na madrugada de quinta para a sexta-feira, às 3h.

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