Max 2018: Séries documentais independentes e dispositivos narrativos

Foto: Élcio Paraiso/Bendita – Conteúdo & Imagem

Maior diversidade entre os realizadores do audiovisual se reflete no que o espectador verá na tela do cinema, TV, computador ou celular. Cria experiências de identificação ou de aprendizado a partir da representação de mundos. O Brasil tem melhorado nos últimos anos, mas ainda há um longo caminho a percorrer no sentido de contemplar os variados grupos que compõem sua sociedade e, especificamente do ponto de vista artístico, ainda pode passar por uma expansão quanto a formatos e gêneros (ficção científica, terror, etc.). Conversas como as que ocorreram na MAX – Minas Gerais Audiovisual Expo refletem algo de tudo isso.

Um dos painéis que abriram o último dia do evento foi sobre a representatividade da mulher negra no audiovisual brasileiro (um dos seguintes foi sobre acessibilidade para pessoas com necessidades especiais). Belo Horizonte, onde a MAX reuniu por alguns dias realizadores, exibidores, distribuidores e representantes do poder público, é a cidade onde nasceu a primeira mulher negra a dirigir um longa-metragem no Brasil, Adélia Sampaio. A desigualdade, no entanto, ainda é grande. Foi dito que em 2016, nenhuma diretora negra esteve à frente de um longa no País.

No painel sobre séries documentais autorais, havia uma diversidade regional, com a presença das produtoras Luni (PE), Guerrilha Filmes (MG) e Panaceia Filmes (GO). “É um momento bonito da nossa produção audiovisual, é a primeira vez no Brasil em que a gente tem a oportunidade de fazer TV autoral. Isso para o documentário é fundamental, porque ele cumpre uma função social que o jornalismo nem sempre consegue cumprir. A gente só exibe produção nacional independente”, comentou a curadora de conteúdo do CineBrasilTV, Maria Rita Nepomuceno.

“Observamos um certo vício na forma de fazer a unidade de uma série pela temática. Se trabalha muito a ideia de colocar a biografia de personagens vivendo essa temática. Existem maneiras de criar uma estrutura em que se consegue, a cada episódio, avançar no conhecimento daquele universo. No cinema autoral documental você pode se posicionar diante do personagem, não deixar só a versão dele. A gente como curadoria do canal quer que o realizador narre a realidade brasileira, se é um material sobre a questão indígena, que ele coloque o pingo nos ‘is’. Mostre se tem demarcação, porque não tem…”, continuou Maria Rita.

“Na estrutura podem ser utilizados alguns dispositivos ditos ficcionais. Na TV americana já estão fazendo séries há muito tempo e eles têm maneiras de lidar com a emoção do espectador. Tem coisa que eu nem gosto muito, mas eles sabem criar emoção e público no documental. É preciso assistir a várias produções, ter referências de linguagem. Sobre elementos ficcionais acho que é importantíssimo falar de Wild Wild Country (Netflix), a trilha sonora é lá no alto, emoção o tempo inteiro, roteiriza tudo, constrói uma estrutura”, citou a curadora do CineBrasilTV.

O Ambientalista

Exemplo de uma obra com posicionamento e “pingos nos Is” é a série O Ambientalista, da Guerrilha Filmes (MG), que estreou no CineBrasilTV em dezembro de 2017 e está disponível no serviço de Video on Demand (VoD). Ela é dirigida por Marcello Marques.

“O protagonista da série é um ambientalista de verdade. Ele nos levou a ideia, a gente achou o título muito bom, mas a proposta do tema na época era algo do tipo que a gente já tinha visto. Passamos um ano desenvolvendo a ideia, que começou a ser formatada de maneira mais interessante e levei para Cannes, acho que a questão ambiental é muito importante e precisa ser tratada globalmente. Tinha pensado em desenterrar crimes ambientais como o acidente com o Césio em Goiânia e fui questionado lá: ‘O que tem de novo?’. Achei que eles tinham razão, comecei a pensar pelo lado da audiência e decidimos buscar os crimes que vem acontecendo no momento”, detalhou Marcelo Marques, que apresentou uma tabela com crimes ambientais no Brasil. A fonte era um estudo da FioCruz e Pernambuco aparecia 13 conflitos principais (há outras categorias).

Desmatamento na Amazônia, o perigo dos agrotóxicos, contaminação por chumbo e arsênico, a situação dos lixões e a tragédia de Belo Monte são alguns dos temas abordados nos episódios. “Faltava um doido para ir lá confrontar esses caras, os agentes causadores, e achei um canal que topou, vi que a gente estava usando a mesma língua. Esta é uma serie documental que investiga crimes e impactos ambientais a partir de técnicas ambientais forenses. Digo que é um C.S.I. ambiental”, comparou Marcelo.

Na imagem abaixo, uma contribuição dele para quem pensa em elaborar um projeto de série documental.

 

Construção da ideia de uma série documental

  • É original?
  • Tem relevância?
  • Qual o contexto sócio-econômico e cultural?
  • Terei acesso aos personagens e locais?
  • Onde será exibido?
  • Qual meu orçamento?
  • Terei conteúdo para mais de uma temporada?

Arquibancadas

A série Arquibancadas, da Luni Produções, também entrará na plataforma VoD do CineBrasilTV. “Próximo à Copa do Mundo a gente queria falar de futebol, mas de forma diferente, usando as conexões que a gente tem por ser uma produtora cultural. A gente buscava quem ‘enlouquece’ pelo time. Foi nossa experiência com o CineBrasilTV e já temos outras em andamento, duas séries com o canal Curta!, quatro projetos em finalização na produtora”, lembrou Danielle Hoover.

Artistas como Beth Carvalho e Samuel Rosa estavam entre os entrevistados da produção e a Luni ainda trabalhou com um desdobramento do tema. “Na Meu Coração Está Aqui olhamos para os estádios. Buscamos desde o homem que abre o portão para a torcida ao que pinta a linha do gramado. As pessoas menos conhecidas também têm histórias interessantíssimas”, pontuou.

Doçaria Brasileira

O CineBrasilTV exibirá, em novembro deste ano a série documental Doçaria Brasileira, da Panaceia Filmes. “Temos quatro diretores criativos. Muita gente está falando de culinária, sem juízo de valor, mas a gente queria não queria fazer um programa de culinária. Somos uma turma que vem da ficção. Então pensava em como trazer gatilhos da ficção para o documental e estimular o espectador, tornar aquilo interessante. O piloto é sobre Goiás e teremos treze episódios”, adiantou Cris.

* Viagem a convite da MAX Minas Gerais Audiovisual Expo.

** Parte deste texto foi publicado originalmente no Jornal do Commercio.

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