Max 2018: Tiago Mello, produtor de 3%, fala sobre séries e personagens

Foto: César Tropia/Bendita – Conteúdo & Imagem

O produtor executivo Tiago Mello, sócio da Boutique Filmes, falou sobre a construção de personagens em séries de ficção na MAX Minas Gerais Audiovisual Expo. Não são regras, disse o profissional, mas pontos para serem discutidos. Um dos trabalhos da empresa usados por ele como exemplo foi 3%, primeira produção ficcional brasileira original da Netflix, que se tornou a série de língua não inglesa mais vista na plataforma de streaming em 2016.

“O personagem no audiovisual acontece através das escolhas que ele faz e existe a partir da relação com os outros. Sempre que ele encontra outro, recebe alguma informação. Destaco também a capacidade de nos identificarmos com eles. Todo personagem importa. Vou citar um exemplo de um que aparece vivo uns quatro minutos em Game of Thrones e adoro. É importante falar também sobre o subtexto. Na nossa vida a gente não fala tudo o que pensa, tem o discurso aparente e o escondido, o que você expressa de outras maneiras. No audiovisual, quanto mais você busca o escondido, mais constrói algo mais interessante”, opina.

Tiago utilizou a prova dos cubos, pela qual os jovens passam em 3% como parte do Processo com o qual as pessoas são escolhidas para morar em um lugar com melhores condições de vida, para exemplificar os tópicos sobre as escolhas dos personagens, suas relações com os demais e o subtexto no roteiro.

“Cada personagem lida com a prova de uma maneira, a personalidade dele vai aparecer e você vai entender algumas coisas. Rafael (Rodolfo Valente) rouba o cubo, isso vai dizer algo sobre quem ele é e mais pra frente tem uma revelação. Ezequiel (João Miguel) decide não eliminar Rafael, então o público pensa: ‘O processo é justo?’. Fernando (Michel Gomes) ajuda Michele (Bianca Comparato). Ele tem a astúcia, capacidade de pensar de outra maneira e, ao mesmo tempo, se cria uma relação entre os dois. Joana impressiona Ezequiel. É uma pessoa que não se valoriza mais tem um potencial muito grande”, sugere Tiago.

O produtor também lembrou dos casos em que há uma dinâmica de “choque” entre personagens, a partir da série Anne With An E (Netflix). “Desta relação podemos ver quem ele é, sua relação de mundo e sua transformação. Anne (Amybeth McNulty) é uma órfã tagarela e muito amada. Matthew (R. H. Thomson) é um homem totalmente submisso, introvertido e incapaz de expressar seus sentimentos”, opina.

A Boutique Filmes também é responsável por produções como a série Gigantes Brasil (History Channel) e S.O.S. Fada Manu (Discovery Kids), mas o produtor executivo também falou de outras produções. Sobre a identificação do público com essas criaturas ficcionais, ele disse: “Em Os Sopranos (HBO), ele não é só o gangster, é uma pessoa chegando a uma certa idade e pensando sobre o sentido da vida. É uma série de máfia, mas tem a identificação do ser humano buscando essa mesma coisa. Em Breaking Bad (AMC), a sensação de que ninguém te valoriza. Outro exemplo é Atlanta (Fox), qual o meu lugar no mundo?”.

Game of Thrones

A personagem de Game of Thrones que fica poucos minutos em tela, mas demonstra como é importante que os criadores deem atenção a cada parte da obra é Karsi (interpretada por Birgitte Hjort Sorensen). Líder de um dos clãs dos povos livres, ela aparece no episódio Hardhome. “Ela perdeu o pai, o tio e o irmão em batalhas contra a Patulha da Noite, grupo agora liderado por Jon Snow (Kit Harington). Quando ele vai procurá-los, ela percebe que precisa confiar nos caras ou todos vão morrer. Ela é fundamental, cada fala dela é muito clara. Em minutos de tela você se comove com ela, que também é importante para a trajetória de Jon Snow”, explica.

Tiago ainda tocou em questões como a diversificação da produção nacional. 3% é uma ficção científica, mas ele não falava apenas de gêneros. “Nosso audiovisual é pouco diverso, de gênero, de raça, classes sociais, regiões. Isso precisa ser pontuado. Nós que trabalhamos no setor precisamos entender a nossa responsabilidade de implementar isso e mudar o paradigma”, destacou.

Sala de roteiristas

Perguntado sobre as salas de roteiristas, Tiago explicou que a Boutique monta uma para cada projeto. “Agora temos três em desenvolvimento. Tem um historiador numa sala nossa. No começo, primeiro mês, ele ia todo dia, depois passou a ir duas vezes por semana. Para outra série temos uma pessoa que foi delegado de polícia. Procuramos ter pessoas com diferentes experiências de vida”, revelou.

“Fazemos um grande diagrama na parede com o número de episódios, os personagens e o plot. Se vai acontecer alguma coisa com a personagem no capítulo cinco, plantamos umas coisinhas antes. Fica uma parede inteira com os episódios e temas. A gente faz isso ainda na etapa de bíblia, que é o documento que engloba tudo que tem relação com o projeto, qual a curva dramática da temporada, informações sobre as possíveis próximas temporadas. Depois a gente divide isso com os produtores e vai para as escaletas. Tudo parte do roteiro e é onde a gente tem que gastar mais tempo”, prosseguiu.

Respondendo a outra questão, sobre o controle do roteirista sobre projeto, o produtor afirmou: “Existe uma tendência atualmente, e isso acontece na minha produtora, de o roteirista ser o chefe. O que se busca no mercado hoje é uma visão, a série precisa ter a visão de mundo clara de um criador. Quem melhor do que o cara que escreve aquilo para determinar o que vai acontecer na temporada? Nos Estados Unidos, há roteiristas que estão dirigindo. Há uma tendência na televisão, que é um meio do roteirista, de que ele seja o líder. O diretor é muito importante, mas a opinião final tem que ser do roteirista. Eles estão tendo que se capacitar não só na parte de escrever a história, mas de direção, produção…”

Personagem

“É um processo doloroso, porque nesse momento você precisa ter tempo, calma, delimitar o personagem. Não vai resolver um dia, às vezes precisa ficar um mês dedicado a uma coisa. Por exemplo, nos curtas-metragens que os meninos (criadores de 3%) fizeram, não tinha Joana (Vaneza Oliveira). Começamos a falar sobre isso, uma hora ela fez muito sentido pra série. É preciso ler muito, ver muito material e, às vezes, tem que jogar tudo fora. Um personagem está quase certo, mas uma coisa não vai funcionar no todo”, comentou Tiago sobre a criação de personagens.

“Dor e medo são sentimentos com os quais você causa grande emoção. No caso das séries, aquilo desperta alguma coisa na audiência para que ela dedique 20 horas de sua vida ou mais. Hoje há tanto conteúdo disponível que, para fazer isso, você tem que ter paixão e aquilo ser importante para sua vida de alguma maneira. Maratona é um modo de consumo em que, quanto menor o tempo em que você consome o conteúdo, mais ele é importante para a sua vida. Eu tenho essa teoria. Depois você quer ficar conversando sobre a série, com os livros isso acontece também”, comparou.

3% e Netflix

Ainda ao falar sobre a série 3%, Tiago lembrou do fato de que a Netflix teve acesso ao piloto disponibilizado pelos realizadores na internet. “Às vezes os curtas que se faz na faculdade são grandes chamarizes para se ver o trabalho daquela pessoa. É muito importante aproveitar o tempo do curso para sair com um material. Às vezes aquilo nem fica bom o suficiente, mas a pessoa vê seu trabalho e chama para uma sala de roteiro, para assistência de direção. Um portfólio que abre portas para algum processo específico”, disse.

“A gente desenvolveu para eles um pacote de materiais, o roteiro do piloto, tinha pré-acordo com dois atores. Eles sentiram que era bom o suficiente para a gente ir adiante com projeto. Eles estavam começando a estruturar a produção aqui. Foi um processo muito interessante quando as pessoas começaram a chegar, eles sempre se envolveram muito. São muito respeitosos conosco, tem um processo colaborativo. É muito difícil fazer televisão no esquema ‘Ah, essa é minha obra’, tem que estar aberto a isso também”, pontuou.

“Com a Netflix tivemos um processo longo, de quase dois anos, até conseguir mostrar que dava para produzir isso no Brasil. Série de ficção científica é algo que já ia muito bem na plataforma, mas no Brasil ainda não se trabalha nesse gênero de maneira consistente. Começado o processo, tínhamos que mostrar que era viável. Acho que conseguimos”, opinou.

“Acho que a produção de gênero é fundamental. As pessoas querem consumir obras diferentes. Quando a gente fez ficção científica, as pessoas olhavam quase como se fosse errado. Acho que a produção de gênero vai aumentar no Brasil, acho interessante também a comédia de texto, não-pastelão, digamos assim”, avaliou.

Projetos para a Boutique Filmes

Em 2018, a Boutique começou a produzir longa-metragens e está com dois filmes e desenvolvimento. Um deles parte do livro Rota 66 – A História da Polícia que Mata, do jornalista Caco Barcellos, e o segundo está fase de roteiro.

Para interessados em enviar projetos para a produtora, Tiago sugeriu o envio da bíblia, argumento e escaleta por e-mail (seuprojeto@boutiquefilmes.com), de preferência com roteiro.

* Viagem a convite da MAX Minas Gerais Audiovisual Expo.

** Parte deste texto foi publicado originalmente no Jornal do Commercio.

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