Museus e Covid-19: Tour virtual e a comunicação pela internet

Muitos museus ao redor do mundo precisaram fechar as portas durante a pandemia da Covid-19 e estão entre os últimos espaços que devem reabri-las para receber o público. Enquanto isso, exposições e tours virtuais, lives e posts nas redes sociais podem ser uma alternativa para manter o contato com o público. Os profissionais de alguns museus relataram suas experiências no webinário Gestão de Museus em Tempos de Crises, realizado em junho pelo Museu do Futebol (São Paulo).

Assisti ao primeiro módulo, Gestão de Comunicação Digital, apresentado pela assessora de comunicação e marketing do Museu do Futebol, Renata Beltrão. Também participaram a diretora do Museu Major Novaes (Cruzeiro/SP),  Cláudia Ribeiro, e a coordenadora de Comunicação Institucional da Rede Museu da Energia, de Flávia Meira.

As ideias compartilhadas na transmissão ao vivo podem ser colocadas em prática durante o período de isolamento social por causa da Covid-19, mas também são úteis para um planejamento a médio e longo prazo das ações da comunicação e do educativo no ambiente virtual. Por isso, decidi apresentá-las aqui.

Entre as dicas mais gerais dadas pela assessora Renata Beltrão no webinário estão: Buscar o que é autêntico para o museu, considerando o perfil da instituição; Identificar onde seu público está, as redes sociais e outros canais de comunicação que ele utiliza (como grupos de WhatsApp); Pensar no tom que será utilizado nas publicações.

As três coisas estão muito entrelaçadas. O tom adotado para as publicações tem a ver com autenticidade e a maneira com que os diferentes públicos se relacionam com os conteúdos, nas diversas ocasiões e plataformas. A identificação dos espaços virtuais utilizados pelo seu público é um primeiro passo no planejamento de posts e materiais que tenham a ver com o perfil do museu.

O tom das publicações nasce de uma combinação de quatro fatores, segundo Renata: Público, canal utilizado, objetivo da publicação e perfil museu. “Vai ter sempre uma variação, dependendo do peso de cada um dos fatores, mas você precisa combiná-los para ser coerente”, resume a assessora.

Sobre autenticidade no conteúdo publicado, Renata Beltrão afirma: “Não é fazer por fazer ou correr atrás de correntes que, de repente, não fazem sentido para você.  Somos um museu de futebol, claro que tem uma margem aí de assuntos que podemos tratar, mas, se a gente sair muito do futebol, sair muito do esporte, não vai soar autêntico para o nosso público”.

Renata utiliza o exemplo da página do Cemitério Jardim da Ressurreição (Teresina) para afirmar que “o posicionamento institucional não precisa ser careta, precisa ser coerente”. Eu lembrei do Atacadão dos Presentes (Recife), que brinca com itens do próprio estoque da loja, como as bonecas Expression Kids. Ambos acabaram chamando a atenção de pessoas de outros Estados, que a princípio não iriam adquirir o que é oferecido, mas interagem com o conteúdo publicado nas redes.

Por falar em rede social, ter um perfil na mais falada do momento pode não ser a opção com melhor retorno para alguns espaços culturais (de novo, onde está o seu público? O conteúdo que seu museu tem a oferecer dialoga com quem está naquela rede específica?). Estar presente em muitas redes ao mesmo tempo pode ser até inviável em muitos casos, por falta de recursos humanos e materiais.

Estratégias e metas

Renata comenta que a definição de editorias ou linhas de trabalho a atuação nas redes ajuda a disciplinar a busca pelos assuntos relacionados ao museu. “Você pode estabelecer um dia na semana para cada assunto ou não, ser mais solto. Mas é legal você ter uma lista de temas que são importantes e que você quer trabalhar recorrentemente”, opina.

Isso é parte da estratégia de trabalho. Para elaborar uma, Renata sugere que o profissional ou equipe se façam as seguintes perguntas: “O que você quer?”, “Com quem você quer falar?”, “Que meios você tem?”, “Quem pode ajudar?”, “Como vou fazer?” e “Quais são as metas?”.

Espaço cultural do Governo de São Paulo e gerido por uma organização social de Cultura, a IDBrasil, o Museu do Futebol tem suas metas contratualizadas. Renata explicou que elas são divididas entre Metas Produto (Volume e frequência de posts, Número de vídeos, Lives realizadas, etc.) e Metas Resultado (Novos seguidores, Número de visualizações, Taxa de engajamento, Pico de audiência, Volume de doações em campanhas como as de crowdfunding, Mensagens recebidas, Compras realizadas, Respostas a pesquisas).

Museus durante a Covid-19

Antes desta parte mais pragmática do webinário, Renata apresentou dados de uma pesquisa sobre a situação dos museus durante a pandemia da Covid-19, que foi feita pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) e o Conselho Internacional de Museus (ICOM, na sigla em inglês).

Cerca de 90% dos museus fecharam as portas durante a pandemia, o que corresponde a quase 90 mil instituições. Na divulgação do estudo também é dito que 13% dos museus estão sob série ameaça de não reabrir.

Metade dos museus pesquisados já tinha presença digital antes da Covid-19 e 15% está com atividades online, mas apenas 5% dos museus africanos e de Pequenos Estados Insulares em Desenvolvimento (PEIDs) estão disponibilizando conteúdos online neste momento.

Na América Latina e Caribe, só 29% dos museus têm equipe de comunicação fixas; 57% têm profissionais de comunicação, mas que não trabalham sempre na sede, e 14% não têm profissionais de comunicação.

“Sabemos que a internet ainda não é uma realidade para todos. No Brasil, hoje tem mais linhas de celulares do que gente, mas nem sempre ter acesso a um smartphone significa ter acesso à internet o tempo inteiro. Muitas pessoas às vezes dependem do wi-fi do trabalho, da escola, da biblioteca, para ter acesso de fato”, destaca Renata.

Partindo para o lado das instituições, foco da pesquisa da Unesco e Icom, a assessora continua: “Sabemos também que nem todas as instituições têm o melhor aparelhamento possível para lidar com a comunicação num nível  profissional. Mas a comunicação digital é o que temos hoje e, por motivos vários que incluem visibilidade, precisamos usar esses meios para nos manter vivos e manter a instituição com relevância neste período”.

“O ambiente digital, em que pese todo esse contexto, que é complexo e, sim, tem carga de exclusão, é o que nos tem dado a oportunidade de manter uma conexão ainda com nosso público e nossos parceiros e manter alguma relevância na esfera da opinião pública”, conclui Renata.

Museu do Futebol tour virtual história do futebol Google Arts and Culture
Sala com fotos históricas no Museu do Futebol ganhou um tour virtual na plataforma Google Arts & Culture

Tour virtual

Desde o início da pandemia, muitos museus e veículos de comunicação estão divulgando possibilidades de ser fazer tours virtuais. Algumas experiências do tipo chegaram a ser lançadas durante o período de isolamento social, como o tour virtual do Mis pela exposição Castelo-Rá-Tim-Bum.

“Uma primeira grande onda foi essa corrida pelos tours virtuais. Era o que se tinha à mão. Os museus que tinham tours virtuais pelo Google ou outra plataforma divulgaram isso de cara e a imprensa, ávida a entender esse mundo que mudou de uma hora para outra, também explorou essas possibilidades. Mas será que esta é a melhor forma da gente de fato se relacionar com nosso público?”, questiona Renata.

“O Museu do Futebol tem uma visita guiada no Google Arts & Culture, da sala que conta o início da história do futebol no Brasil. O tour é interessante e é legal você ter se puder, mas não é isso que cria relação com o público. O que move as pessoas na internet? Acho que todo mundo que usa rede social já sabe um pouco qual é a resposta, é a participação”, afirma a assessora.

Renata lembrou do movimento Museu Challenge, no qual as pessoas produzem fotografias inspiradas em obras de arte, espontaneamente ou estimuladas por museus e agentes como o canal de TV Arte 1.

MuseumChallenge Instagram
Algumas fotografias publicadas no Instagram com a hashtag #MuseumChallenge

Como se pode ver pelas redes sociais, alguns tentam ser mais fiéis ao original, outros apostam no humor e existem os que fazem comentários sobre o contexto atual – como o caso das pessoas retratadas com rolos de papel higiênico, referência ao início da pandemia, quando muitos compraram o item em grande quantidade.

“As pessoas querem participar, querem se ver, querem dialogar. A grande coisa que a internet traz pra gente é a possibilidade da pessoa comum se inserir de alguma forma. Por isso, tínhamos a sensação de que o tour virtual sozinho não proporcionaria esta participação. Precisamos atuar num outro nível de diálogo para de fato conquistar esse público e ganhar relevância nas redes sociais”, avalia Renata.

Exposição virtual

“O que tenho observado é que uma das soluções mais frequentes que têm sido adotadas por museus, no Brasil e do mundo, é explorar mais o acervo nas redes sociais. É o museu olhar para o seu acervo em detalhes, colocar um curador ou educador para falar sobre o objeto ou o próprio prédio e fazer exposições online, que são diferentes de visitas virtuais pois são pensadas para a lógica da internet”, opina Renata.

“Para a exposição online, você faz uma curadoria de imagens ou fotos de objetos do acervo e agrega textos, cria uma narrativa. A exposição virtual não tenta emular o espaço físico. Um exemplo disso é o Google Arts & Culture, o Museu do Futebol foi um dos primeiros do Brasil a participar e hoje temos 15 exposições virtuais na plataforma deles, mas você pode fazer uma exposição virtual num blog, num site”, esclarece.

Além das exposições virtuais, serviços como o WordPress e Wix podem ser aproveitados na criação de páginas para conteúdos específicos, como o material educativo que o espaço cultural já tenha disponível. No início da pandemia, o hotsite Educar Museu Futebol foi criado pela equipe a partir de um template gratuito, customizado para ter a identidade visual da instituição.

Museu do Futebol exposicao virtual Google Arts and Culture
Algumas imagens que fazem parte das exposições virtuais do Museu do Futebol na plataforma Google Arts & Culture

Streaming de vídeo

Renata chamou atenção, ainda, para a possibilidade de se estabelecer parcerias. Uma das primeiras ações virtuais realizadas pelo Museu do Futebol durante a pandemia, o Cinema em Rede, surgiu a partir de uma sugestão feita por um parceiro. As sessões de filmes sobre futebol são realizadas no YouTube ou Facebook uma vez por semana, sempre nos sábados, às 21h.

“Esse parceiro é um produtor de vídeo que é ligado ao Acervo da Bola e à Portuguesa. Ele tinha um filme e entrou em contato com a gente. Deu tão certo, teve um engajamento tão grande da torcida, que isso trouxe para gente a parceria da Federação Paulista de Futebol, do próprio clube… A partir dessa experiência, que seria uma coisa pontual, a gente transformou a sessão num programa. Então, rapidamente arrumamos o filme do Bahia para passar na semana seguinte, fomos atrás do CineFoot, que agora é curador da seleção de filmes”, explica Renata.

Os links para os filmes expiram ao final da sessão, porque não necessariamente eles já estão disponíveis  abertamente nas redes sociais. A divulgação da programação é feita pela imprensa, pelas redes sociais e por grupos de torcedores no WhatsApp. O recorde de público até o momento foi alcançado pelo filme Bahêa minha vida.

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